Chega essa época do ano e parece que o Brasil inteiro toma a mesma decisão ao mesmo tempo. O frio dá um leve sinal e, de repente, todo mundo resolve viajar para os mesmos lugares, nas mesmas datas, com o mesmo roteiro. Gramado (RS), Campos do Jordão (SP), Monte Verde (MG) são ótimos destinos para isso e devem ser visitados pelo menos uma vez na vida no auge do inverno, mas trago verdades: eles são bons o ano inteiro, inclusive no verão. Segundo estimativas das prefeituras, Gramado recebe milhões de visitantes por ano, com picos concentrados entre junho e setembro. Campos do Jordão, em poucas semanas de alta temporada, chega a receber centenas de milhares — às vezes mais de um milhão — de turistas.
Você já sabe como funciona: aeroporto cheio, restaurante com espera, trânsito na chegada, fila pra tudo. Frio, às vezes. Multidão, sempre. E aí vale a pergunta, sem muito rodeio: é isso que você quer ou você só está indo porque todo mundo vai?
Porque tem uma coisa que muda (ou deveria mudar) com o passar do tempo… Depois dos 60, você começa a ter uma combinação que pouca gente valoriza do jeito que deveria: tempo, alguma estabilidade financeira e, principalmente, experiência suficiente para não cair em qualquer roteiro empurrado. Só que, curiosamente, muita gente continua viajando como se estivesse na mesma lógica de antes, correndo atrás de agenda, de tendência, de lugar “da vez”. Não faz muito sentido. Se tem uma fase da vida que permite escolher melhor, é essa.
Por isso mesmo, se você quiser fazer diferente, você pode sempre fomentar o turismo de determinados destinos na baixa temporada, fugir do fluxo, porque agora você tem essa chance.
E escolher melhor, nesse caso, pode começar com uma constatação simples: o Brasil é um país tropical. Mas ele tem, espalhados pelo território, lugares onde o clima muda, a temperatura cai, o ritmo desacelera e a experiência fica muito mais interessante. O problema é que muitos desses lugares ainda estão fora do radar principal. E talvez seja justamente por isso que valem tanto a pena.
Eu lembro bem da primeira vez que fui para Monte das Gameleiras, no Rio Grande do Norte. No meio do Nordeste, um hotel com lareira. Minha reação inicial foi rir. Aquela coisa meio deslocada, meio fora de contexto. Até a noite cair, o vento bater e eu perceber que estava disputando espaço ao lado da lareira com outras pessoas na mesma situação. Frio de verdade, silêncio, pouca gente. Nada de excursão, nada de disputa. Uma experiência completamente diferente daquela ideia pronta que a gente costuma ter do Nordeste.
Algo parecido acontece em Bonito, em Pernambuco — e não, não é o Bonito que você está pensando no Mato Grosso do Sul. Serra, cachoeira, vegetação mais fechada, uma temperatura que surpreende para os padrões da região e uma sensação muito mais próxima de interior do que de destino turístico estruturado. Tem neblina de manhã, tem calmaria, tem espaço. E isso, dependendo do momento da vida, vale mais do que qualquer roteiro cheio.
Agora, se a ideia for um pouco mais estruturada, Ibitipoca, em Minas Gerais, continua sendo um dos melhores exemplos de como fazer turismo de natureza no Brasil sem cair no excesso. O parque é bem cuidado, as trilhas são acessíveis dentro do possível, e existe ali uma energia que não depende de glamour, de fila ou de cenário montado. Você caminha, para, respira, observa.

E tem um ponto que pouca gente considera: você não precisa ir longe para viajar bem. Existe um Brasil inteiro acontecendo num raio de 200, 250 quilômetros de onde você está. Estradas boas, cidades históricas, rios, serras, restaurantes, pequenas experiências que não aparecem em ranking nenhum, mas que entregam exatamente o que muita gente procura — só que sem o desgaste. Eu já fiz roteiro saindo de São Paulo capital que, em menos de 100 quilômetros, passa por história, natureza, estrada bonita e boa comida. Cem quilômetros. Tem gente que pega avião para viver menos do que isso.
Claro que existe uma questão prática que pesa: viajar está caro, e não dá para fingir que isso não influencia. Passagem aérea subiu e dificilmente vai voltar ao que era. Combustível oscila, demanda cresce. Então talvez o movimento mais inteligente agora não seja viajar menos, mas viajar diferente. Ficar mais tempo no mesmo lugar, reduzir deslocamentos desnecessários, aproveitar melhor o tempo disponível. Porque, no fim das contas, o custo do transporte muda pouco. O que muda é a forma como você usa a viagem.
E tem uma camada mais profunda nisso tudo. Durante muito tempo, o turismo brasileiro tentou copiar modelos de fora — especialmente do Hemisfério Norte. Lugares frios, experiências padronizadas, referências que nem sempre fazem sentido para o nosso clima, para o nosso território, para o nosso jeito de viver. Só que o Brasil não precisa disso. O nosso turismo de natureza tem outra lógica, outro ritmo, outra relação com o corpo e com o ambiente. E talvez esteja na hora de parar de traduzir essa experiência e começar a assumir o que ela é.
Então, antes de entrar no automático e repetir o roteiro de sempre, talvez valha a pena fazer um pequeno desvio. Olhar o mapa com mais calma, conversar com quem conhece o interior, considerar outras possibilidades. Porque, no fim das contas, a escolha é simples: repetir o que todo mundo já conhece ou descobrir um Brasil que ainda surpreende.
Se a ideia for a segunda, o caminho está aberto. Mais vazio, mais silencioso, mais honesto — e, principalmente, no seu tempo. (Por fim, sugiro fortemente visitar o site da Abeta (abeta.tur.br) e consultar nosso mapa de associados).
Aproveite a jornada.
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