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Astroturismo: o Brasil que começa quando o sol se põe

Meu amor, nosso amor estava escrito nas estrelas.” A canção interpretada por Tetê Espíndola venceu o Festival dos Festivais, em 1985, atravessou décadas e continua habitando a memória de muita gente. Gilberto Gil cantou que “há de surgir uma estrela no céu”. Mais recentemente, a banda Melim encontrou “o teto de estrelas sobre nós”. Muito antes dessas músicas, porém, o céu já orientava deslocamentos, marcava o tempo, alimentava mitologias e ajudava diferentes povos a compreender os ciclos da natureza. Agora, as constelações também movimentam o astroturismo.

O céu conecta ciência, espiritualidade, arte, história e cultura. Também desperta algo que talvez seja cada vez mais raro no nosso cotidiano hiperconectado em telas e acostumado a olhar para baixo: a disposição de parar, olhar para cima e perceber que fazemos parte de algo muito maior.

Para quem atua com ecoturismo e turismo de natureza, o astroturismo já não é exatamente uma novidade. A Academia Brasileira de Letras o define como “o turismo motivado pela observação de astros e fenômenos celestes, especialmente em lugares com pouca poluição luminosa e atmosférica e com condições climáticas e topográficas favoráveis”.

Na prática, seu alcance é ainda mais amplo. A observação pode ser feita a olho nu, com binóculos, telescópios ou equipamentos fotográficos, e pode se desdobrar em atividades de divulgação científica, interpretação ambiental, astrofotografia, contemplação, educação e valorização dos conhecimentos tradicionais associados ao céu. Mas vai além de enxergar mais estrelas, cria novas formas de se relacionar com a noite, com a paisagem e com os territórios.

Associados da ABETA que já transformam o céu em experiência

O potencial apontado por estudos e índices começa a encontrar correspondência na oferta turística. Em diferentes regiões do país, associados da ABETA já incorporam a observação do céu a seus roteiros e vivências.

• Mantiqueira Ecoturismo

Na Serra da Mantiqueira, a Mantiqueira Ecoturismo oferece o Roteiro Noturno Via Láctea. A experiência leva os visitantes a um ponto situado a cerca de 1.700 metros de altitude, afastado das luzes urbanas, para observar estrelas, constelações, planetas e a própria Via Láctea. Realizado em veículo exclusivo, o roteiro mostra como a paisagem de montanha pode continuar sendo vivenciada depois do pôr do sol e como uma atividade noturna pode complementar a programação de quem visita a região.

•  Urbia Cataratas

No Parque Nacional do Iguaçu, a Urbia Cataratas realiza a experiência Céu das Cataratas. Oferecida aos sábados para grupos reduzidos, a atividade combina conhecimentos científicos sobre astronomia com histórias e interpretações da cultura Guarani. Em uma área exclusiva, com baixa interferência luminosa, os participantes observam o céu enquanto escutam a força das Cataratas durante a noite. A experiência inclui transporte interno, acompanhamento especializado e estrutura para contemplação, mostrando que o astroturismo também pode estabelecer pontes entre ciência, patrimônio natural e saberes culturais.

• Ibiti Projeto

Em Minas Gerais, o Ibiti Astros aproxima o conhecimento astronômico de pessoas que desejam compreender melhor aquilo que enxergam no céu. A vivência acontece ao ar livre, nas proximidades das hospedagens do Ibiti Projeto, e é conduzida de maneira leve e acessível. Disponível no Ibiti Village e no Engenho Lodge, a atividade atende grupos pequenos e reforça uma característica importante do astroturismo que é a curiosidade.

• Praia Rica Expedições

A Praia Rica Expedições trabalha com viagens privativas e personalizadas em territórios de Tocantins e Goiás, incluindo Jalapão, Serras Gerais e Chapada dos Veadeiros. Ao anunciar a temporada de céus estrelados, a empresa incorpora a noite à experiência de imersão no Cerrado. É uma forma de ampliar o roteiro sem tirar o protagonismo do território, reconhecendo que uma parte importante dele aparece quando a luz do dia se despede.

De aposta a tendência do turismo

A publicação oficial Tendências do Turismo, produzida pelo Ministério do Turismo e pela Embratur em 2024, apresenta o astroturismo como uma aposta e utiliza a expressão “banho de estrelas” para falar da busca por experiências contemplativas em lugares afastados do excesso de iluminação e da agitação das cidades. Na edição de 2025, a modalidade já aparece entre as tendências identificadas em diferentes publicações internacionais analisadas pelo estudo.

Essa passagem de “aposta” para “tendência” revela uma movimentação importante: o céu noturno começa a ser percebido como parte da oferta turística de um destino, capaz de complementar trilhas, hospedagens, experiências culturais, atividades fotográficas e visitas a áreas protegidas. Também permite ampliar os horários de visitação e diversificar o que um território oferece sem necessariamente exigir grandes intervenções físicas.

Ainda não existe, nas fontes oficiais consultadas, uma série histórica que permita isolar quanto o astroturismo movimenta no Brasil. Os indicadores mais próximos estão inseridos no universo mais amplo do turismo em áreas naturais e unidades de conservação.

Em 2025, 175 unidades de conservação federais abertas à visitação receberam 28,5 milhões de visitas. Um estudo do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade estimou que essa movimentação gerou R$ 40,7 bilhões em vendas, acrescentou R$ 20,3 bilhões ao Produto Interno Bruto e sustentou aproximadamente 332,5 mil postos de trabalho. Os números não correspondem especificamente ao astroturismo, mas ajudam a dimensionar o mercado no qual a atividade pode se desenvolver.

Um mapa para o céu dos parques brasileiros

É justamente para compreender melhor esse potencial que foi criado o IASTRO — Índice de Potencial Astroturístico dos Parques Nacionais, uma iniciativa desenvolvida pelo Instituto Entreparques em parceria com profissionais ligados ao projeto Astroturismo nos Parques Brasileiros. O índice parte de uma ideia simples, mas ainda pouco incorporada ao planejamento turístico: o céu noturno é um dos serviços ecossistêmicos oferecidos pelas áreas naturais. Embora esteja acima de todos nós, sua qualidade muda de acordo com a poluição luminosa, a presença de nuvens, as condições climáticas e a estrutura disponível para receber visitantes.

O IASTRO avaliou 75 (dos 77 atuais, em 2026) parques nacionais brasileiros a partir de quatro componentes: qualidade do céu noturno, probabilidade de céu aberto, disponibilidade de condutores e existência de locais para pernoite. A poluição luminosa representa metade do peso do índice, seguida pelas condições climáticas, com 30%, e pelas estruturas de condução e hospedagem, com 10% cada. A metodologia utiliza referências adotadas pela DarkSky International e pela Starlight Foundation, adaptadas às características das unidades de conservação brasileiras.

O resultado mostra a dimensão da oportunidade: oito parques foram classificados com potencial excelente, 25 como ótimo e 22 como muito bom. Isso significa que 55 dos 75 parques analisados alcançaram pelo menos a categoria “muito bom”. Entre aqueles com potencial excelente estão os parques nacionais do Catimbau, da Chapada dos Veadeiros, das Nascentes do Rio Parnaíba, das Sempre-Vivas, da Serra da Capivara, da Serra do Teixeira, das Sete Cidades e do Viruá.

O índice aponta possibilidades. Ao reunir dados de céu, clima e infraestrutura, ajuda gestores públicos, pesquisadores, empresas e comunidades a identificar onde já existem condições favoráveis, quais aspectos precisam ser aprimorados e quais territórios podem receber investimentos, capacitações e projetos-piloto.

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O Brasil tem extensão territorial, diversidade de paisagens, áreas protegidas e uma riqueza cultural profundamente ligada à observação da natureza. O potencial é, como dizem os próprios idealizadores do IASTRO, “astronômico”. Talvez o próximo grande destino brasileiro não seja apenas um lugar no mapa, pode ser também aquilo que aparece acima dele quando o sol se põe.

 

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Barbara Ataide
Barbara Ataide

Barbara Ataide é jornalista, estrategista de comunicação e fundadora da Agência Lunga. Com mais de 15 anos de experiência, desenvolve estratégias e conteúdos para iniciativas ligadas à cultura brasileira, ao turismo responsável e ao impacto socioambiental. Movida pela curiosidade de entender quem está por trás de cada causa, transforma histórias, projetos e ideias em narrativas sensíveis, consistentes e capazes de dialogar com diferentes públicos. É especialista em Comunicação Empresarial e Marketing e atualmente cursa Escritas Performáticas pela PUC-Rio, ampliando sua pesquisa sobre escrita e linguagem.