O tema do aquecimento global e das mudanças climáticas cresce exponencialmente tanto em interesse quanto em preocupação de atores globais, entre eles tomadores de decisão nos setores público e privado, academia, terceiro setor e imprensa. Também, cidadãos e consumidores tornam-se mais atentos a cada catástrofe registrada, seja fogo, cheia ou seca em grandes proporções, por exemplo.
Turismo é intensivo em carbono e suas emissões só crescem
O turismo é um setor que contribui para o aquecimento global e é diretamente impactado pelas mudanças do clima. É intensivo em carbono e suas emissões aumentam em alta velocidade, ao passo que não há quaisquer sinais de reversão, em serviços, destinos ou países. Caso as emissões continuem na intensidade atual, serão dobradas a cada 20 anos, em forte contradição aos acordos climáticos multilaterais e, principalmente, às necessidades há muito apontadas por cientistas e por agências especializadas da ONU. A transição para uma atividade de baixo carbono e resiliente é possível, mas não será simples, nem rápida. Dada a complexidade do desafio, a solução necessariamente precisa ser colaborativa: estratégias público-privada, investimentos e, principalmente, governança. Além disso, já não estamos mais falando da sustentabilidade que conhecemos pois, essa, já era, como nos ensina o Dr. Elimar Nascimento. Será preciso, também, investimentos, desenvolvimento e absorção de muitas inovações e novas habilidades.
A principal convenção multilateral sobre o clima foi assinada no Rio de Janeiro, em 1992: a Convenção-Quadro das Nações Unidas para Mudanças do Clima (UNFCCC). O Acordo de Paris, assinado em 2015 e dela derivado, estabelece que os países devem empreender todos os esforços para manter as temperaturas terrestres entre 1,5ºC e 2,0ºC superiores ao período pré-industrial. Contrário às projeções, esta marca foi atingida antecipadamente em 2024, quando registrou-se aumento de 1,56ºC, o mais alto da história. Caso as temperaturas se mantenham com aumentos entre 1,2ºC e 1,9ºC na próxima década, já teremos entrado na zona de perigo e, possivelmente, em caráter irreversível.
A importância do Brasil para o futuro do turismo

O Brasil tem história, experiência e credibilidade internacional em negociações climáticas. No ano em que sedia e preside a trigésima Conferência das Partes da UNFCCC (COP30), o turismo pode ter seu segundo dia temático oficial no âmbito das negociações multilaterais do clima. Foi o Governo do Azerbaijão que incluiu o turismo na agenda estratégica das COPs, quando a presidiu, no ano passado. A partir de diálogos de alto nível, o encontro de lideranças em Baku resultou também na Declaração de Baku para o Fortalecimento de Ações Climáticas, a qual 69 país assinaram, entre eles o Brasil. A Declaração de Baku encoraja seus signatários a incorporarem o turismo como setor obrigatório no âmbito das prescrições e metas vinculantes do Acordo de Paris.
No caso do Brasil, o turismo estreou junto ao Acordo de Paris em 2024, pelas mãos do Vice-Presidente da República e da Ministra do Meio Ambiente e Mudanças do Clima, ao apresentarem, na COP29, a segunda NDC do país, ou Contribuição Nacionalmente Determinada. Passou a ser setor obrigatório o turismo ter seus planos de mitigação e de adaptação, e cumprir as metas de redução de emissões de gases de efeito estufa. O Brasil indicou que reduzirá entre 59% e 67% suas emissões até 2035. Turismo deverá contribuir.
No âmbito global, em 2019, o turismo registrou 1,5 bilhão de viagens, US$6 trilhões e 8,8% das emissões totais, segundo pesquisa liderada pela cientista Ya-Yen Sun, da Universidade de Queensland (Austrália). Entre 2009 e 2019, as emissões do turismo aumentaram 3,5% ao ano, quatro vezes mais do que o setor de serviços e 30% superior à média da economia global. A jornada das emissões do setor é crítica porque, no atual paradigma do turismo, em que a cada US$1 gasto são gerados 1,02 Kg de GEE (2019), não seria possível conciliar crescimento e redução das emissões de gases de efeito estufa. Não há projeções para o turismo global decrescer nas próximas décadas, portanto, uma transformação radical parece o único caminho para o cumprimento de suas responsabilidades climáticas e, mais relevante, sobrevivência.
O que pode estar em jogo na COP30 para o turismo brasileiro e global
Na COP30, a influência e a experiência do Brasil poderão acelerar as tratativas de integração das políticas de turismo às climáticas. Definir as diretrizes para a adaptação do turismo às prescrições climáticas, às metas, aos indicativos de governabilidade e, principalmente, o acesso a recursos financeiros, científicos e tecnológicos, pode estar em jogo. Para isso, no entanto, é necessário uma estratégia e um plano de ação liderados pelo governo, em parceria com a ONU e com apoio das lideranças da sociedade civil e da academia, do Brasil e dos principais negociadores climáticos e representantes setoriais. Duas reflexões, neste contexto, me parecem importantes a nós, profissionais de turismo do Brasil.
Em primeiro lugar, há uma limitada compreensão sobre a COP30 pela sociedade brasileira. A quatro meses da mais influente conferência global do clima, 71% dos brasileiros dizem não saber do que se trata, segundo a pesquisa “Protagonismo do Brasil na COP30 – Brazil Forum UK”, realizada pelo Ideia Instituto de Pesquisa e pelo Instituto LaClima, cujos resultados foram apresentados no Brazil UK Forum, na Universidade de Oxford, na semana passada. Ainda que não surpreenda, essa constatação preocupa porque, possivelmente, entre os desconhecedores da conferência podem estar líderes que deveriam estar engajados no tema. Em segundo lugar, o Brasil está sendo amplamente questionado por países membros da ONU, na Conferência do Clima de Bonn, que acontece entre 16 a 26 de junho, sobre os preparativos para Belém. Dificuldades com acesso e hospedagem, sobretudo pela pouca disponibilidade e pelos preços exorbitantes, foram temas de discussões do mais alto nível, na ONU. Alguns países e organizações já indicam possibilidade de desistência se não conseguirem confirmar sequer a participação de sua delegação central.

Após minha participação no dia temático do turismo durante a COP29, tenho dialogado com lideranças globais sobre a temática, buscando, também, trazer um pouco das reflexões ao Brasil. Sem exceção, escuto que os planos de participação na COP30 estão incompletos porque não há sobre o que avançar, até o momento. Surgem, portanto, necessários movimentos de instituições como The Travel Foundation e Travalyst, lançados na London Climate Week (21-29 Junho), sobre Turismo e COP30.
E o turismo brasileiro, também anfitrião, como se prepara para as discussões de alto nível em Belém? Como estão as políticas para transição para uma atividade de baixo carbono e resiliente? Como vamos financiar essa transição? Como serão pesquisadas, testadas, apoiadas e subsidiadas as soluções? São questões que, me parecem, ainda estão em aberto. Mas, se acelerarmos bastante o passo, creio haver tempo para fazermos história em Belém. Contem comigo!
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