Mau planejamento e atitudes agressivas podem prejudicar espécies e habitats
A observação de aves, pelo menos como a conhecemos atualmente, teve seu início no século XVIII e XIX, principalmente na Europa e na América do Norte. Ela surge, entre os naturalistas, como uma alternativa aos estudos ornitológicos mais invasivos, que consistiam no abate e coleta de espécimes para estudos em laboratório, depósitos em museus e em coleções particulares. Sendo assim, a observação de aves nasce com um apelo ativista e conservacionista, incentivando o uso de binóculos e da observação indireta. A atividade rapidamente se popularizou no século XX com o surgimento e ampliação do acesso a equipamentos, sobretudo aos binóculos. O avanço das viagens turísticas ao redor do mundo também ajudou a impulsionar observadores na busca por novos avistamentos em destinos em todos os cantos do planeta.

No Brasil, a atividade se consolidou cerca de 50 anos atrás, mais precisamente em 1974, com a criação do primeiro Clube de Observadores de Aves no país, o COA Rio Grande do Sul. A atividade fica isolada em pequenos grupos nas regiões Sul e Sudeste, até que, no início dos anos 2000 alguns eventos impulsionam a expansão do hobby: o Avistar Brasil (2006), maior encontro de observação de aves do país, e o Wiki Aves (2008), maior site especializado sobre o tema no Brasil. Em 2010, o eBird, plataforma estadunidense também voltada a observadores de aves, ampliou seu alcance para todo o mundo.
A competição pelo maior número de avistamentos e suas consequências
Uma coincidência com esses eventos parece transformar a atividade e adicionar algumas características específicas na nova geração de observadores. As grandes redes sociais, Orkut e Facebook (2004) e o Instagram (2010) nascem no mesmo período e a era digital influencia diretamente na forma como o observador de aves se envolve com a atividade: não basta apenas ver a ave, é necessário mostrar para as pessoas o que você viu. A busca pelos “likes” também cria a necessidade de se obter fotografias perfeitas e a busca por espécies raras e de difícil acesso.

Isso se reflete no dado de que mais de 90% dos observadores brasileiros é usuário de câmera fotográfica e sequer tem um binóculo, pelo menos esse é o dado observado entre os clientes que atendi pelos últimos 10 anos. Atualmente existem dezenas, talvez centenas, de outros sites e aplicativos semelhantes e a maioria deles também tem uma característica em comum: os rankings. Os rankings de usuários com maior quantidade de espécies registradas, de cidades, estados e países, adicionam um tempero de competitividade, não só pela beleza da imagem, mas também pela quantidade.
Esse fator não é unicamente brasileiro. Nos Estados Unidos, por volta de 1953, surge o “Big Year”, desafio onde observadores de todo o país tentam ver a maior quantidade de espécies de aves dentro de um ano. O eBird, em 2015, lança o “Global Big Day”, quando pessoas de todos os lugares do mundo tentam ver a maior quantidade de aves em um único dia. Todos esses dados são depositados em rankings e a competição pela melhor posição se instaura.

Todos esses elementos, históricos e atuais, influenciam a forma como algumas pessoas se envolvem com a atividade e isso tem causado alguns problemas. A competição qualitativa e/ou quantitativa pode trazer danos irreversíveis para a conservação de aves e habitats. Uso abusivo de métodos de atração (comedouros, bebedouros e aparatos sonoros), perseguição de indivíduos, longo período de exposição, não observância de capacidade de carga e frequência de visitas em trilhas, entre outros, são práticas que podem significar o total desaparecimento de ambientes e espécies. Seja entre observadores com muita experiência ou iniciantes, essas práticas invasivas têm sido mais comuns. Ao que parece, o olhar humano e sua necessidade/desejo de avistar ou fotografar determinadas ou várias espécies se sobrepõem ao bem-estar do animal e do ambiente.
Qual o custo ambiental para evitar a frustração de observadores
Que valores envolvem uma boa foto de ave ao ar livre? Existem os valores econômicos, considerando que essas expedições precisam de infraestrutura, equipamentos e logística. Mas existe, também, o custo de qualidade de vida do animal, que por vezes não é considerado por alguns observadores: quando o sujeito passa horas cercando a ave em busca de uma imagem perfeita; quando usa playback sem limite; quando acende luzes na cara de indivíduos com hábitos noturnos; quando grupos de dezenas de pessoas passam ao mesmo tempo em um ambiente sensível; quando pousadas em áreas rurais começam a implantar cevas sem planejamento, escolha dos alimentos e higiene; quando são publicados registros falsos de avistamento, com imagens de outras pessoas e em lugares forjados; ou até quando algumas pessoas chegam ao limite de interferir em ninhos para fotografá-los. Existe uma dificuldade em lidar com a frustração. Uma pessoa investe valor financeiro e tempo na expectativa de avistamentos e quando isso não acontece – o que pode ser muito comum – as atitudes de alguns observadores passa a se tornar desrespeitosa.

Os resultados podem ser observados diretamente na natureza como, por exemplo, o lenheiro-da-serra-do-cipó, uma ave endêmica da Cordilheira do Espinhaço, que vem sofrendo o efeito dos exageros. Ao longo dos anos, foi observado o desaparecimento da espécie em algumas trilhas frequentadas por observadores de aves. Cada dia que passa tem sido mais difícil a visualização da espécie e a presença exagerada de pessoas pode ser uma das razões.
Observadores de aves já estão sendo barrados em determinados locais
Infelizmente isso tem sido observado em vários cantos do país, levando alguns gestores a impedir o acesso de observadores de aves em Unidades de Conservação públicas e privadas. Como exemplo, podemos citar a Reserva Natural da rolinha-do-planalto, em Botumirim/MG, que é o único local conhecido de ocorrência da espécie. Na última contagem oficial foram encontrados apenas 11 indivíduos, menor contagem desde o início dos censos. Esse dado, associado a abusos de observadores de aves, levou ao fechamento da reserva para atividades de visitação.

Outro local que já esteve fechado a observadores é um trecho de rio do PARNA da Serra da Canastra, em São Roque de Minas/MG, onde observadores estavam pisoteando a margem para ver uma família isolada de patos-mergulhões com filhotes. Além dos inúmeros casos de locais nos quais determinadas espécies desapareceram após o aumento de visitas de observadores.

Não só fatores conservacionistas são ignorados para evitar a frustração. Cuidados básicos de segurança e respeito a normas e legislação também são burlados frequentemente na busca frenética pelo novo registro. Invasão a propriedades privadas, não respeito ao zoneamento e plano de manejo de Unidades de Conservação, alteração proposital de hábitats para a criação de “cenários”, entre outros tantos. Além disso, podemos também citar a falta de capacitação e formalização das pessoas que atuam economicamente com o turismo de observação de aves, que também adiciona inúmeros fatores negativos para o desenvolvimento e reconhecimento da atividade.
Sendo assim, entendo que é urgente que esse tema seja cada vez mais abordado e debatido entre profissionais e turistas, para que não sejam esquecidas as razões pelas quais a atividade nasceu, o conhecimento e a conservação das aves e seus ambientes.

O cerne da observação de aves é promover a educação e conservação
Apesar de todos os pontos negativos listados acima, a observação de aves no Brasil certamente tem saldo positivo. A atividade vem contribuindo muito para a educação e conservação ambiental, atraindo cada vez mais pessoas e as colocando em contato com o ambiente natural. Algumas dessas pessoas, inclusive, passam a contribuir ativamente em projetos ativistas e conservacionistas. Além disso, a atividade contribui muito para o conhecimento da avifauna brasileira, adicionando informações sobre comportamento, ecologia e distribuição.
O turismo de observação de aves também trouxe inúmeros pontos positivos. Ao longo dos últimos anos a atividade mudou a vida de pessoas e lugares em todos os cantos do Brasil, gerando uma nova alternativa de trabalho e geração de renda. Para finalizar, vale também adicionar a contribuição fundamental na vida e na saúde de muitos brasileiros, sendo o hobby uma excelente opção terapêutica para pessoas enfermas ou mesmo que sofreram algum trauma ou perda recente.
A mensagem a ser transmitida é a de que o praticante da observação de aves precisa avaliar, constantemente, seu comportamento e seus limites e entender que nenhum objetivo pessoal deve ser mais importante que o bem estar da ave e a conservação de seu habitat.
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