Como descarbonizar e assumir a responsabilidade pela pegada de carbono que nossas atividades deixam no planeta
Quem atua no ecoturismo e no turismo de aventura sabe: sem manguezais preservados, rios e praias limpas, trilhas seguras e florestas de pé, não há experiência para oferecer. Esses ambientes encantam visitantes e sustentam comunidades que atuam como guardiãs do território. Por isso, exigem cuidado e responsabilidade, tanto dos turistas conscientes quanto de todo o trade turístico, que precisa garantir que a cultura de preservação e regeneração esteja presente em cada experiência do visitante.

Não adianta neutralizar apenas o voo se a hospedagem não realiza coleta seletiva, por exemplo. O turista percebe essas incoerências, o que fragiliza o discurso de turismo sustentável em qualquer destino. A verdadeira jornada sustentável não pode se limitar ao transporte aéreo: ela deve estar presente em todo o destino, fortalecendo uma cultura de pertencimento e transformação ecológica local e colaborando para o alcance das metas climáticas em qualquer nível, seja público ou privado.
Mudanças climáticas: um desafio imediato
Nos últimos anos, os sinais se tornaram impossíveis de ignorar. Secas prolongadas, cheias inesperadas, ondas de calor intenso e a perda acelerada de biodiversidade afetam diretamente destinos e atividades. Estudos já alertam que áreas costeiras serão duramente impactadas pelo aumento do nível do mar, resultado do derretimento das geleiras (Human Climate Horizons).
Apesar do cenário desafiador, há uma boa notícia: o turismo de natureza pode ser o grande protagonista e parte ativa da solução. Turistas, meios de hospedagem, agências, guias e operadoras têm condições reais de contribuir, cada um dentro do seu contexto.

O que significa descarbonização
Descarbonizar é assumir a responsabilidade pela pegada de carbono que nossas atividades deixam no planeta. No turismo, isso pode ser feito tanto pelos viajantes quanto pelo trade e pelos destinos, especialmente com apoio governamental.
O caminho é claro: primeiro, identificar de onde vêm as emissões; depois, reduzir o que for possível com boas práticas; e, por fim, compensar o que não pode ser evitado, apoiando projetos confiáveis de conservação e captura de carbono.
Esse processo deve seguir os padrões mais reconhecidos internacionalmente: GHG Protocol, ABNT NBR ISO 14064, ABNT PR 2030 e ABNT NBR ISO 2060, além de estar alinhado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, à Declaração de Glasgow para o Turismo e aos critérios do GSTC.
Bons exemplos de Estados e empresas apontam o caminho
Um bom exemplo vem do Mato Grosso do Sul. A Fundtur/MS, alinhada ao Plano MS Carbono Neutro 2030, estruturou inventários de emissões, planos de redução e neutralização de grandes eventos turísticos, além de adotar o turismo responsável como política de Estado. Esse movimento abriu espaço para que pequenas empresas também avançassem, inspiradas pelo exemplo público, fortalecendo destinos de ecoturismo e aventura em todo o país.
Em Bonito (MS), empresas locais participarão em 2025, de um programa de descarbonização apoiado pelo Governo do Estado e realizado pela Compensei, por meio do Prêmio Challenge Turismo MS.
Em Itacaré (BA), o Hotel Barracuda oferecerá aos turistas a possibilidade de calcular e compensar sua pegada de carbono através de um formato híbrido inédito no Brasil, desenvolvido pela Compensei. A compensação apoia projetos de créditos de carbono certificados em energia renovável, enquanto outra parte se destina a Pagamentos por Serviços Ambientais (PSA) locais. Esse modelo não apenas cumpre as normas de neutralização, como também gera um impacto duplo, global e local, provando que descarbonizar é viável e transformador.

Como e por que dar esse passo agora
Pesquisas internacionais como “Travel & Sustainability” do Booking (décima edição/2025) mostram: turistas dão preferência a empresas que assumem compromissos climáticos reais. No turismo de natureza, isso se torna ainda mais relevante, pois a experiência sustentável e regenerativa cria vínculos, memórias e confiança.
O primeiro passo é mapear as emissões: consumo de energia, geração de resíduos, efluentes, logística e deslocamentos. Ferramentas de cálculo e gestão climática, como o Carbonômetro da Compensei, é seguro e preciso para inventários, tornando todo o processo simples, confiável e acessível.
Depois, investir em soluções para reduzir os impactos, como educação ambiental para visitantes e colaboradores, transporte coletivo ou mobilidade sustentável para turistas, uso de energia renovável, tratamento adequado de resíduos e a contratação de fornecedores de produtos e serviços locais sempre que possível.
No turismo de natureza, a neutralidade é apenas o começo. Apoiar projetos de reflorestamento e conservação, valorizar comunidades locais e engajar turistas para que façam parte da solução transforma cada viagem em um legado positivo para o destino. Os viajantes percebem isso e cada vez mais, buscam locais comprometidos com a responsabilidade ambiental.
Transformar intenção em prática
O ecoturismo e o turismo de aventura brasileiros têm todas as condições de se consolidarem como referência internacional em turismo de baixo carbono. A COP30, que se aproxima, reforça a urgência de dar esse passo. Mais do que nunca, é hora de transformar a intenção em prática: fortalecer destinos, apoiar comunidades guardiãs da natureza e mostrar que o turismo pode ser parte da solução e um aliado real no enfrentamento à crise climática.
Esse caminho garante que nossas paisagens continuem sendo não apenas destinos para o mundo, mas também patrimônios vivos para as próximas gerações.
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