O turismo precisa assumir sua responsabilidade e importância na geração de renda aliada à preservação ambiental, sendo protagonista de atitudes que não inviabilizem a própria existência. O setor ainda parece estar à margem da liderança econômica e ambiental, em contraponto com sua relevância, tanto para empreendedores quanto para gestores e fontes de financiamento.
As contribuições do turismo para a humanidade são amplas e relevantes. O setor promove o intercâmbio entre povos e culturas, movimenta economias e aproxima pessoas da natureza. No entanto, seus impactos negativos também são expressivos — em especial, as crescentes emissões de carbono, que contribuem para o aquecimento global e, consequentemente, para as mudanças do clima, com seus eventos extremos.
Desde a década de 1950, o turismo cresce continuamente, acompanhando a economia global, as tecnologias e as inovações. As projeções futuras indicam uma expansão significativa das viagens. Contudo, não há, até o momento, soluções viáveis para que esse crescimento ocorra sem intensificar a carbonização da economia. Coloca-se, então, um desafio central: como crescer sem carbonizar a economia? Esse desafio precisa ser enfrentado de forma coletiva e urgente.

O crescimento do turismo e suas implicações climáticas
Estima-se que, até 2050, a atividade turística atinja a marca de um turista para cada dois habitantes do planeta, totalizando mais de 4,7 bilhões de deslocamentos. Trata-se de um contraste expressivo com os dados de 1950, quando apenas 25 milhões de viagens foram contabilizadas.
Entretanto, o crescimento do setor está diretamente associado ao aumento das emissões de gases de efeito estufa — ou, como conhecido mais amplamente, de carbono. Quanto maior sua concentração na atmosfera, mais rápido se acelera o aquecimento global, intensificando a força, a frequência e o impacto de eventos climáticos extremos.
Impactos no Brasil: um país altamente vulnerável
O Brasil está exposto a múltiplos riscos climáticos. O aquecimento da Terra tem potencializado fenômenos de maneira mais severa em regiões tropicais, de baixa latitude, como é o caso do Brasil. Cada bioma sente esses impactos de forma distinta, mas generalizada. Apenas entre 2023 e 2024, observaram-se, no país:
- Grandes incêndios no Pantanal;
- Seca severa e grandes enchentes na Amazônia;
- Deslizamentos de terra no litoral;
- Enchentes no Sul do país;
- Aumento da temperatura dos oceanos, provocando o branqueamento e a morte de corais — responsáveis por cerca de 85% da biodiversidade marinha no litoral nordestino;
- Vendavais, “quase ciclones”, no Sudeste e Sul;
- Temperaturas extremas em diversas partes do País.
Esses eventos afetam não apenas os ecossistemas, mas também as comunidades locais, os trabalhadores do setor e os próprios turistas, em termos humanitários e econômicos.
Em relação ao turismo internacional no país, ainda não se pode prever os impactos, mas certamente haverá. Pesquisas indicam crescente atenção dos consumidores ao tema climático e, em turismo, a preferência de viajantes, sobretudo aqueles oriundos de países de latitude média-alta e alta – maiores mercados emissores -, por fuga de locais com calor extremo ou sob alto risco climático.
A longo prazo, não tão longo, crescer aumentando a carbonização da economia não é alternativa: salvo para os suicidas.
A pegada de carbono do turismo
Em 2019, registrou-se que, para cada US$ 1 gasto em turismo, eram gerados 1,02 kg de carbono. Esse dado revela a incompatibilidade técnica entre o crescimento do setor e a redução de emissões, confirmando o turismo como uma economia de alto carbono. Essa realidade está fortemente relacionada ao modelo em que se encontra atualmente, com dependência de transportes movidos por combustíveis fósseis — os principais emissores de gases poluentes.

Caminhos para a transição: duas estratégias prioritárias
Para que o turismo possa seguir florescendo, sem agravar a crise climática e protegendo-se dos eventos críticos, é essencial acelerar sua transição para um modelo de baixo carbono e com resiliência. Duas estratégias são prioritárias:
Descarbonizar o Setor
A descarbonização deve começar pelos maiores emissores – os meios de transporte e os resíduos provenientes de operações turísticas.
Entre as ações necessárias, destacam-se:
- Incentivo ao uso de biocombustíveis e veículos híbridos;
- Adoção da economia circular, com eliminação de resíduos poluentes, como plásticos e embalagens descartáveis.
Aumentar os Sumidouros de Carbono
Outra frente é ampliar os sumidouros de carbono, ou seja, os ecossistemas capazes de capturar gases da atmosfera. Financiamentos e incentivos à expansão de áreas naturais, como florestas, manguezais e recifes de corais, podem ser viabilizados por meio de práticas de turismo regenerativo.
Conservar o que já existe é essencial, mas insuficiente. É necessário restaurar ecossistemas e recuperar a diversidade de fauna e flora, com vistas a tornar o setor carbono zero.
O papel do Brasil nas negociações climáticas
A Conferência das Partes da Convenção do Clima (COP) é o principal espaço de negociação global para cumprimento das metas do Acordo de Paris. Em 2025, a COP30 acontecerá no Brasil, primeira vez desde que a Convenção do Clima foi assinada, no Rio de Janeiro, em 1992. As obrigações do Acordo, para quase todos os países do mundo, incluem:
- A neutralização total de carbono até 2050;
- A mobilização de financiamento para a transição energética e a adaptação climática.
Em novembro de 2024, o turismo foi incluído entre os setores obrigatórios da descarbonização da economia brasileira. Na COP29, em Baku, o Brasil apresentou sua segunda revisão de metas, comprometendo-se a reduzir entre 59% e 67% das emissões até 2035, com base nos níveis de 2005. Trata-se de um esforço de grande envergadura, que exigirá cooperação entre todos os setores da economia.

O turismo no centro da transição justa
O próximo passo é claro: inserir o turismo no debate climático, compreender o problema, elaborar diagnósticos e implementar soluções concretas. Ignorar a urgência da descarbonização e seguir planejando o crescimento irrestrito do setor significa alimentar o problema — em resumo, dar um tiro no próprio pé.
O turismo precisa fazer parte desse esforço nacional. Contudo, ainda permanece à margem do debate climático central, e fora das principais negociações, inclusive as de financiamento.
Diante da emergência climática, o turismo brasileiro encontra-se, aparentemente, diante de uma encruzilhada: ou assume seu papel na transição para uma economia de baixo carbono, contribuindo para a regeneração dos territórios, ou seguirá comprometendo os próprios fundamentos que sustentam sua existência. Este é um falso dilema. Crescer no âmbito de um modelo intensivo de carbono é inviável a longo prazo. Ou seja, na pegada em que nos encontramos, com mais duas ou três décadas, os efeitos dos eventos climáticos extremos serão nocivos à saúde humana e à economia em uma dimensão insustentável. A oportunidade está posta, e é excepcional para o turismo brasileiro. Cabe a nós escolher se seremos parte do problema ou da solução. Escolher ser parte do problema é tornar inviável o turismo nas próximas décadas.
Artigo publicado originalmente na Revista Abeta Summit 2025, que você pode conferir aqui.
Por Jaqueline Gil (doutoranda em Desenvolvimento Sustentável, CDS/UnB e consultora) e Elimar Pinheiro do Nascimento (doutor em Sociologia, professor do Centro de Desenvolvimento Sustentável, CDS/UnB, escritor e consultor).
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