Às vésperas de completar 50 anos, resolvi caminhar de Águas da Prata até Aparecida pelo Caminho da Fé, fazendo um balanço da vida. Ninguém na minha família havia chegado aos cem, então achei razoável pensar que já tinha mais passado do que futuro pela frente. Pois todas as pessoas com quem conversei durante a caminhada eram mais velhas do que eu, entre elas um sujeito de 75 anos que seguia de bicicleta com um grupo. Pedalando, meu amigo! Aquilo ficou na minha cabeça.
Em outra viagem, na Serra do Rio do Rastro, em Santa Catarina, conheci uma professora aposentada que gostava de fotografar a natureza para depois pintar seus quadros. Convidei-a para uma trilha até uma cachoeira, mas ela hesitou, porque estava pouco acostumada a caminhar. Quando topou, seguimos no ritmo dela, devagarinho, parando para tomar fôlego e beber água. A alegria ao completar o percurso foi tamanha que nossa amizade rendeu outras experiências e até o prefácio de um livro seu.
Lembro dessas duas histórias quando alguém tenta me explicar quem é o viajante 60+. Tem de tudo um pouco, como em qualquer idade, mas ainda carregamos aquela imagem da vovó diante da televisão e do vovô jogando dama na praça. Quem gosta disso deve aproveitar, claro, só que há muita gente pedalando, caminhando, descobrindo lugares e começando atividades que nunca havia experimentado. E quem precisa de apoio também tem direito a participar.

O que o viajante 60+ deseja?
No atendimento turístico, o problema começa quando alguém prefere vender o pacote pronto a entender o que o visitante deseja. Em 2026, a pesquisa Turismo 60+: O Brasil que Viaja Depois dos 60, da Data8 com o Expo Fórum de Turismo 60+ e apoio do Ministério do Turismo, ouviu 1.012 brasileiros. Segundo divulgação da revista Melhor Viagem, apenas 26% sentiam que as viagens eram pensadas para sua faixa etária. O levantamento tem recorte nas classes A/B e C; mesmo entre consumidores desse mercado, falta escuta.
Na ABETA, estimulamos empresas a acolher melhor essa diversidade. O Parque dos Sonhos, da Rede dos Sonhos, é uma referência que gosto de citar: oferece atividades de aventura com equipamentos adaptados, incluindo tirolesa para pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida. Há investimento em estrutura e preparação da equipe para ampliar as possibilidades de participação. A idade, sozinha, diz muito pouco sobre o que cada visitante pode fazer.
Isso exige responsabilidade. Antes de contratar, o viajante precisa conhecer o esforço, os riscos e as restrições da atividade, e a empresa precisa saber das suas condições de saúde e de preparo. A norma ABNT NBR ISO 21103 trata justamente das informações aos participantes. Avaliação médica, quando indicada, integra esse cuidado, e o operador deve reconhecer os limites do atendimento que consegue oferecer. Bom senso, boa educação e informação clara fazem parte da aventura.
Tempo versus dinheiro
Também precisamos conversar sobre dinheiro, porque vejo o turismo brasileiro ficando caro, e caro é aquilo que custa mais do que vale. Há aposentados com renda apertada e pessoas que chegam à maturidade com mais recursos, assim como há quem tenha tempo disponível e quem continue trabalhando ou cuidando da família. Tratar todo mundo como consumidor do mesmo pacote apaga essas diferenças.
No levantamento da Data8, 87% têm flexibilidade para escolher as datas da viagem. Para quem dispõe de tempo, viajar fora da alta temporada pode trazer preços melhores e menos muvuca. Por que concentrar as viagens nos mesmos lugares e nas mesmas datas? O Brasil e nossos vizinhos oferecem uma imensidão de paisagens e culturas, e muitas descobertas começam perto de casa. Gosto da ideia de que pequenas distâncias podem render grandes aventuras.
Temos boas iniciativas que incentivam o turismo e ampliam as possibilidades de viajar. Conhece alguma? Na cidade de São Paulo, o Polo de Ecoturismo de Parelheiros, Marsilac e Ilha do Bororé, criado por uma política pública municipal em 2014, mostra como é possível desenvolver o turismo de natureza, valorizar a cultura local e gerar oportunidades para as comunidades. Com trilhas, cachoeiras, áreas protegidas e experiências culturais, a região é também um convite para descobrir que, muitas vezes, temos lugares surpreendentes bem perto de casa. Falando em diferentes lugares do Brasil, o Turismo Social do Sesc, por exemplo, oferece passeios e viagens que estimulam a convivência, o lazer e o conhecimento de novos destinos.
E a viagem continua depois da volta. Nos anos 1990, quando eu organizava viagens em grupo, vi pessoas que embarcavam, sem se conhecer, formar amizades e passar a conviver fora daqueles roteiros. Para quem sente falta de companhia, esse encontro pode abrir novas possibilidades. É por isso que insisto em aproveitar melhor o tempo que temos, com os cuidados e o ritmo de cada um. O padrão pode ficar em casa; a curiosidade merece passear.
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