Viajar a lazer é aquele momento bom de conhecer um destino, ter dias de descanso, viver uma aventura esperada há tempos e, para além disso, a oportunidade de aprender com quem vive no local. Para quem recebe essas pessoas viajantes, cada visita pode ajudar a sustentar um negócio, perpetuar conhecimentos transmitidos entre gerações e criar oportunidades de trabalho perto de casa. Mas para isso (fazer com que esses benefícios cheguem às comunidades), é preciso olhar para como o turismo é planejado e de quem participa das decisões.
Essa orientação faz parte do trabalho desenvolvido pelo Instituto Bancorbrás, agente social do Grupo Bancorbrás e apoiador do ABETA Summit 2026. Para conhecer os projetos e os critérios por trás desses investimentos, conversamos com Roberta Abreu, gerente executiva da instituição. Assistente social com mais de 18 anos de experiência no Terceiro Setor e no Investimento Social Privado, ela lidera iniciativas voltadas ao desenvolvimento das pessoas e dos territórios.
Nesta entrevista que você acompanha a seguir, Roberta apresenta experiências com comunidades indígenas, resultados de programas de qualificação e os desafios de ampliar um turismo que gere renda com conservação da natureza e participação de quem vive nos destinos. Acompanhe com a gente!
ABETA — Como o turismo se tornou uma prioridade para o Instituto Bancorbrás e qual é a relação entre o investimento no setor e a missão da instituição?
Roberta Abreu — O Grupo Bancorbrás, reconhecido por sua atuação principal no setor de turismo, compreende o papel estratégico e a responsabilidade de promover um impacto socioambiental positivo na comunidade. Nesse contexto, o Instituto Bancorbrás atua como seu agente social, alinhando as ações de Investimento Social Privado aos objetivos estratégicos e comerciais do grupo.
O Turismo Sustentável foi formalizado como um dos três compromissos estratégicos centrais na Teoria da Mudança da instituição, ao lado do Fortalecimento do Terceiro Setor e Negócios de Impacto e do Fortalecimento do Voluntariado, em 2023.
Essa escolha também está conectada à própria causa do Instituto: promover o protagonismo social e contribuir para a transformação de realidades, por meio de iniciativas de empreendedorismo, desenvolvimento territorial e Investimento Social Privado, incluindo estratégias de filantropia colaborativa.
O investimento em ecoturismo e turismo responsável faz sentido porque a atividade, quando desenvolvida de forma consciente e conectada ao território, ultrapassa o aspecto econômico: atua como vetor de geração de renda, conservação ambiental, valorização cultural e fortalecimento do sentimento de pertencimento em comunidades locais e tradicionais.
Para o Instituto Bancorbrás, o turismo pode ser mais do que uma atividade econômica ou uma experiência de lazer. Quando desenvolvido de forma responsável, conectado às características, potencialidades e necessidades de cada território e com participação ativa das comunidades, o turismo pode atuar como catalisador de transformação territorial e contribuir para a superação de situações de vulnerabilidade.
ABETA — O Instituto apoiou o ABETA Summit em 2024 e 2025. O que motiva a continuidade dessa parceria em Campo Grande, em 2026, e quais resultados espera construir com o encontro?
Roberta — O Instituto Bancorbrás apoiou formalmente as edições do ABETA Summit em 2024, em Foz do Iguaçu (PR), e 2025, em Caraguatatuba (SP). A participação na 23ª edição, em 2026, em Campo Grande (MS), representa a consolidação dessa trajetória.
O apoio evita a descontinuidade institucional em espaços consolidados do setor, fortalece a marca e amplia redes estratégicas em uma região reconhecida como polo do turismo de observação de aves e turismo de base comunitária.
O Instituto participa na modalidade de Apoio Institucional — Sustentabilidade, com espaço de fala para representantes em painéis sobre sustentabilidade, veiculação de vídeo institucional na abertura e publicação de artigos técnicos nos canais da ABETA.
Os resultados esperados são o fortalecimento do posicionamento do Instituto como referência em turismo responsável, a ampliação de parcerias multissetoriais, a aproximação com gestores públicos e a geração de conteúdos técnicos para o setor.

ABETA — Quais frentes são prioritárias e que critérios orientam a seleção dos projetos, especialmente quando envolvem conservação da natureza e comunidades tradicionais?
Roberta — Transformação territorial por meio de aceleração e fomento a negócios de impacto no turismo, qualificação de profissionais e guias, como o projeto Capacita Bancorbrás no Centro-Oeste; turismo regenerativo e etnoturismo, apoio direto a comunidades indígenas e tradicionais, a exemplo do projeto Rumo ao Turismo Regenerativo com o povo Haliti-Paresi em Mato Grosso; articulação territorial e redes de governança, como a Jornada Pacto pelo Turismo Responsável no Distrito Federal.
Critérios de escolha e orientação:
- Alinhamento direto com a Teoria da Mudança e com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU (como ODS 8, 11 e 13).
- Garantia de protagonismo comunitário, autonomia e preservação dos saberes ancestrais das comunidades envolvidas.
- Viabilidade de geração de renda sustentável e adoção de práticas ESG nos modelos de gestão.
- Conservação e proteção do território, considerando o potencial do projeto de contribuir para a conservação da biodiversidade e dos recursos naturais;
- Protagonismo e salvaguarda das comunidades tradicionais, garantindo que elas participem das decisões e sejam beneficiárias diretas, sem descaracterização de seus modos de vida e saberes;
- Impacto territorial e sustentabilidade no longo prazo, indo além da execução pontual do projeto.
ABETA — Nos projetos de turismo apoiados pelo Instituto, como vocês procuram assegurar que as comunidades locais participem das decisões e se beneficiem da renda gerada, respeitando sua cultura e os limites do território? Pode compartilhar uma experiência que mostre esse trabalho na prática?
Roberta — O Instituto adota metodologias baseadas na escuta ativa e no apoio a iniciativas geridas pelas próprias comunidades, com a integração de critérios ambientais, sociais e de governança, governança comunitária nas tomadas de decisão e contratação de mão de obra local.
Um exemplo é o projeto Rumo ao Turismo Regenerativo, desenvolvido na Terra Indígena Haliti-Paresi, em Mato Grosso, em parceria com o Instituto Samaúma/Vivalá. O projeto formou 50 participantes de cinco aldeias — Katyalarekwa, Serra Dourada, Oreke, Arara Azul e Duas Cachoeiras — em gestão turística regenerativa, além de oferecer consultoria local para adequação de hospedagens em casas tradicionais, chamadas hatis, e elaboração de cardápios com alimentos locais.
A primeira expedição, realizada em junho, gerou R$ 7.956,44. Foram investidos R$ 7 mil em benfeitorias locais, como banheiros e energia solar, e a comunidade ampliou sua oferta de 1 para 5 roteiros turísticos próprios.

ABETA — Quais dados ajudam a compreender os benefícios dos projetos apoiados e como o Instituto acompanha esses resultados?
Roberta — Os projetos apoiados pelo Instituto são acompanhados a partir de indicadores que buscam demonstrar não apenas a execução das iniciativas, mas as mudanças geradas nos negócios, nas organizações, nas pessoas e nos territórios.
Em 2025, alguns resultados ajudam a ilustrar essa atuação:
- Programa Impulsione Turismo Sustentável: acompanhou seis negócios de impacto, com projeção média de aumento de 97% no faturamento para 2025 e 100% dos negócios adotando práticas ambientais, sociais e de governança e ferramentas de gestão financeira.
- Jornada de Inovação Bancorbrás Social: apoiou cinco organizações da sociedade civil de turismo sustentável, como Associação Despertar e SPVS, aumentando a maturidade institucional média de 74% para 83%, criando sete novos produtos turísticos e promovendo injeção direta de R$ 31.935 nas comunidades, beneficiando 195 empreendedores locais.
- Capacita Bancorbrás: qualificou 80 profissionais e guias no Centro-Oeste, dos quais 62,5% eram mulheres e 72,5% pertencentes a grupos minorizados.
O acompanhamento é guiado por indicadores da Teoria da Mudança e inclui metodologias como Gestão de OKRs (com média de avanço de 77%), diagnósticos comparativos de maturidade (T0/T1), mensuração do Índice de Aplicação das Aprendizagens (IAA) e visitas técnicas presenciais in loco para avaliação operacional e mitigação de riscos.
Dessa forma, buscamos acompanhar o turismo não apenas como atividade econômica, mas como vetor de desenvolvimento local, observando sua capacidade de gerar renda e oportunidades, fortalecer organizações e empreendedores, promover inclusão e contribuir para práticas mais responsáveis e sustentáveis nos territórios.
ABETA — Quais são os principais desafios para ampliar esse modelo de turismo no Brasil e como a colaboração entre empresas, poder público, comunidades e ABETA pode contribuir?
Roberta — O principal desafio para os próximos anos é ampliar modelos de turismo que gerem desenvolvimento sem comprometer os territórios que lhes dão origem. Isso exige superar uma visão fragmentada do setor e fortalecer uma atuação mais articulada entre empresas, poder público, organizações da sociedade civil e comunidades.
Nesse caminho, entendemos que o Instituto não consegue e não deve atuar sozinho. Com a ABETA e Empresas: pretendemos manter uma presença institucional ativa em fóruns qualificados de ecoturismo e turismo de natureza, ampliando o diálogo e promovendo o Investimento Social Privado como instrumento de fortalecimento do turismo responsável.
Com o poder público e ecossistema: fomentar articulações regionais e agendas coletivas, como o Pacto pelo Turismo Responsável e debates em redes de investidores sociais (como o Congresso GIFE), além de participar de espaços de diálogo e construção de conhecimento no campo do investimento social privado.
E, junto às comunidades: manter o modelo de co-criação e escuta atenta, oferecendo capital semente, aceleração e capacitação técnica voltada para a autonomia de povos tradicionais e empreendedores locais.
Nossa perspectiva é contribuir para a construção de um turismo em que o desenvolvimento econômico caminhe junto com a conservação da natureza, a valorização cultural, a inclusão e o protagonismo dos territórios. Para nós, ampliar esse modelo significa não apenas fazer o turismo crescer, mas ajudar a fazer com que ele gere mais valor compartilhado e contribua efetivamente para a transformação dos territórios
Vamos continuar essa conversa com a Roberta em Campo Grande?
Como essas experiências podem contribuir para o trabalho de quem organiza viagens, conduz visitantes ou recebe turistas em sua comunidade? O ABETA Summit é uma oportunidade de levar essas perguntas para uma conversa presencial, não só com a Roberta mas também com mais congressistas profissionais e simpatizantes do movimento da vida ao livre.
De 25 a 28 de novembro de 2026, estaremos em Campo Grande (MS) para este encontro! Venha compartilhar suas experiências e participar das discussões sobre o turismo de natureza e de aventura no Brasil.
Confira a programação e saiba como participar do ABETA Summit 2026.
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