Sabia que observar uma ave, conhecer o trabalho de quem pesquisa animais silvestres ou percorrer uma trilha com um condutor que cresceu naquele território são experiências que aproximam o visitante da natureza e de seus cuidados? No Mato Grosso do Sul, essas atividades também fazem parte de uma discussão sobre o desenvolvimento do turismo: como fazer com que o interesse pela biodiversidade contribua para conservá-la e gere oportunidades para quem vive nos destinos?
Na Semana de Proteção à Fauna, celebrada de 4 a 10 de outubro, a ABETA ouviu Edson Moroni e Flávia Neri, profissionais da Fundação de Turismo de Mato Grosso do Sul (Fundtur MS), para entender como essa relação tem sido trabalhada no estado e quais desafios precisam entrar no planejamento do setor. Confira a opinião desses especialistas a seguir!
Uma diversidade que exige planejamento
Parte da resposta sobre conservar a biodiversidade e gerar oportunidades para quem vive no destino começa na variedade de ambientes sul-mato-grossenses. Moroni destaca a presença do Pantanal, do Cerrado e da Mata Atlântica, além das formações do Chaco na região de Porto Murtinho. Segundo ele, a combinação de áreas alagadas, savanas, várzeas e veredas ajuda a explicar a riqueza de espécies e as possibilidades de contato com a natureza no estado.
Biólogo formado pela Universidade Federal da Grande Dourados, com pós-graduação em Governança e Inovação no Turismo pela Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul, Moroni atua desde 2023 como gerente de Estruturação e Inovação da Oferta Turística da Fundtur MS. Sua trajetória inclui mais de dez anos de trabalho com turismo de natureza, especialmente ecoturismo e observação de aves.
Ao falar das ameaças à biodiversidade, ele chama a atenção para “o desenvolvimento sem uma metodologia, sem um controle, sem um planejamento”. Na avaliação do biólogo, as mudanças no uso do solo precisam ser analisadas considerando tanto as atividades econômicas quanto a sensibilidade dos ambientes, com um olhar para o conjunto do território e para as particularidades de cada área.

Esse cuidado também orienta o planejamento turístico, segundo Flávia Neri, assessora de Sustentabilidade e Ação Climática no Turismo da Fundtur MS. “No Mato Grosso do Sul, partimos da premissa de que a natureza conservada é o nosso principal ativo”, afirma. Bacharel em Turismo e em Jornalismo, mestre em Geografia com ênfase em Desenvolvimento Regional e fiscal ambiental no Imasul, Flávia explica que decisões de investimento, estruturação de produtos e promoção de destinos passam pelo critério da sustentabilidade. Na prática, ela destaca o fortalecimento da governança e o cumprimento das condicionantes do licenciamento ambiental dos empreendimentos.
Como o turismo se aproxima da conservação?
Moroni cita o apoio da Fundtur MS a projetos voltados à conservação de espécies como a arara-azul, o papagaio-verdadeiro, o tatu-canastra e o tamanduá. Segundo ele, experiências associadas a essas iniciativas permitem que os visitantes conheçam melhor a fauna e os ambientes em que ela vive.
Entre os exemplos de sucesso estão o trabalho desenvolvido no Delta do Salobra e ações na região de Bonito com o Instituto das Águas da Serra da Bodoquena (IASB), envolvendo plantio e adoção de mudas. São formas de incluir na experiência turística o contato com quem atua na conservação e a participação em atividades de recuperação ambiental.
Flávia também destaca as parcerias com o Instituto Arara Azul e o Onçafari, além da formação de condutores e da estruturação do turismo de observação de aves. A aproximação com essas iniciativas tem uma finalidade que vai além da visita, como ela explica: “O resultado prático que buscamos é a conversão do fluxo de visitantes em financiamento direto para pesquisa, monitoramento de espécies e proteção de habitats, provando que o turismo regenerativo é viável, urgente e necessário”.
A observação de aves oferece ainda uma contribuição para a ciência cidadã. De acordo com Moroni, “os registros feitos pelos observadores ajudam a ampliar o conhecimento sobre a ocorrência e a distribuição geográfica das espécies”. Assim, uma atividade que mobiliza pessoas a viajar também pode reunir informações úteis para conhecer a biodiversidade do estado.

Quem vive no território assume o protagonismo
“Acreditamos que a conservação e a prosperidade do turismo só são efetivas quando incluem as pessoas”, afirma Flávia. A assessora relata que a Fundtur MS tem apoiado a estruturação do turismo de base comunitária em territórios indígenas, quilombolas, assentamentos e povos de terreiro, em um processo que também traz aprendizados para a equipe da Fundação.
Ela cita a formação de condutores locais em parceria com instituições como o Instituto Homem Pantaneiro e identifica, na observação de aves e de outros animais silvestres, oportunidades de trabalho e valorização dos conhecimentos locais.
“Quem vive no território assume o protagonismo como guardião do meio ambiente, gerando renda descentralizada, orgulho de pertencimento e valorização da cultura local”, afirma. Para as empresas, essa participação pode ser fortalecida por decisões cotidianas, como a contratação de profissionais do destino e a compra de produtos e serviços da cadeia local.

Fortalecimento pelo associativismo
O interesse pela fauna exige uma visitação bem conduzida. Moroni aponta o controle do número de visitantes, considerando a capacidade de carga dos atrativos, e a capacitação de guias e condutores entre os cuidados adotados em experiências de Bonito e do Pantanal. Segundo ele, essas medidas ajudam a organizar a observação dos animais com atenção aos ambientes naturais.
Flávia recomenda às empresas práticas de mínimo impacto na observação de vida silvestre, capacitação contínua das equipes e aproximação com projetos de conservação que já atuam no território. Os dois entrevistados também destacam os Sistemas de Gestão de Segurança (SGS) como parte da organização das operações turísticas.
Para a assessora, “o associativismo fortalece esse trabalho ao ampliar a cooperação entre empresas, a representação do setor e a adoção de boas práticas. A orientação aos visitantes integra essa responsabilidade e faz dos profissionais que conduzem as experiências também interlocutores da educação ambiental”.

E como ficam os desafios do clima?
Ao olhar para os próximos passos, Flávia aponta a adaptação às emergências climáticas como o principal desafio para ampliar a contribuição do turismo à conservação. Ela destaca os períodos intensos de seca e o risco de queimadas, que afetam diretamente a fauna e as rotas turísticas, e relata que a Fundtur MS vem fortalecendo o debate com destinos, empresários e outras instâncias.
“A realização do Abeta Summit em Campo Grande será uma oportunidade incrível para apresentar esses cases de pertencimento, engajamento e combate à emergência climática, inspirando todo o Brasil a avançar nessa pauta”, completa.
Já se inscreveu no Abeta Summit 2026? Não? Então corra para aproveitar os primeiros lotes. A Fundtur-MS representa o Destino Anfitrião desta edição – Campo Grande dos Ipês.
Os artigos assinados são de responsabilidade de seus autores e não expressam a opinião da ABETA. Direitos reservados. Para reproduzir é necessário citar a fonte.




