Inscreva-se na nossa newsletter!

Como a escala 5×2 pode impulsionar a economia do turismo de natureza e aventura

O debate sobre a adoção da escala 5×2 no Brasil tem sido conduzido, sobretudo, sob a ótica trabalhista. No entanto, há uma dimensão econômica ainda pouco explorada: o impacto direto dessa mudança sobre o turismo.

Falo a partir de duas experiências complementares. No passado, atuei como gestor público à frente da Secretaria Municipal de Turismo de Foz do Iguaçu. Nos últimos dez anos, venho atuando como empresário no setor, tanto na hospedagem quanto no turismo de natureza e aventura. Essa trajetória, aliada à formação em Economia e Meio Ambiente pela UFPR e à recente aprovação para o mestrado em Turismo pela UFRN, me permite analisar o tema com base na prática e em fundamentos econômicos.

A mudança estrutural, o tempo livre como ativo econômico

A escala 5×2 reorganiza um dos principais ativos da economia do turismo: o tempo disponível das pessoas. Ao garantir dois dias consecutivos de descanso para uma parcela maior da população, cria-se uma condição objetiva para o crescimento das viagens de curta duração. Não se trata apenas de mais folgas, mas de folgas estruturadas, previsíveis e aproveitáveis.

Esse ponto é central. O turismo, especialmente o de natureza e aventura, não depende apenas de renda. Depende, sobretudo, de tempo disponível organizado.

Segundo dados do Ministério do Turismo, cerca de 30,3% das viagens domésticas brasileiras possuem duração de apenas dois a três dias, evidenciando a força econômica do turismo de fim de semana.

E é justamente nesse segmento que o turismo de aventura e natureza se posiciona de forma privilegiada. O efeito econômico real, baixo aumento de custo e forte expansão de mercado.

Grande parte do debate sobre o fim da escala 6×1 concentra-se exclusivamente no aumento do custo trabalhista. Porém, no caso do turismo de natureza e aventura, essa leitura é incompleta.

Estudos econômicos baseados em dados do Ministério do Trabalho e da RAIS indicam que a redução da jornada pode gerar impacto de aproximadamente 4% a 5% sobre os custos de mão de obra em muitos segmentos da economia, especialmente em operações com maior flexibilidade de escala e reorganização operacional.

Ao mesmo tempo, o turismo opera sobre uma lógica econômica extremamente sensível ao aumento do tempo livre disponível. E isso muda completamente a equação.

O setor de turismo de aventura e natureza é um dos mais dependentes do turismo de fim de semana, das viagens curtas e do turismo regional. Ou seja, exatamente o tipo de consumo que tende a crescer de forma mais acelerada com a ampliação do descanso estruturado.

Na prática, o aumento potencial de demanda tende a superar amplamente o aumento proporcional do custo operacional.

Isso ocorre porque:

  • o turismo possui elevada capacidade de transformar tempo livre em consumo
  • o turismo de aventura trabalha com experiências de curta duração.
  • grande parte da estrutura operacional já está instalada
  • pequenos aumentos de fluxo produzem forte impacto sobre faturamento e margem.

Em muitos empreendimentos turísticos, o crescimento previsto de demanda entre 10% e 20% possui potencial para gerar aumento de receita e lucratividade significativamente superior ao crescimento estimado de 4% a 5% na folha operacional. Ou seja, o efeito econômico líquido tende a ser positivo. Especialmente no turismo de natureza e aventura.

A lógica econômica é relativamente simples:

  • mais pessoas com dois dias consecutivos de descanso
  • mais viagens regionais
  • mais viagens recorrentes ao longo do ano
  • maior ocupação em finais de semana ampliados
  • maior consumo de experiências ao ar livre

Isso amplia diretamente:

  • faturamento
  • taxa de ocupação
  • recorrência de clientes
  • estabilidade financeira
  • previsibilidade operacional

O setor mais beneficiado pela mudança

Entre todos os segmentos do turismo, poucos possuem aderência tão direta ao novo comportamento social quanto o turismo ligado à natureza.

O turismo de aventura possui características ideais para capturar esse novo mercado:

  • experiências de um ou dois dias
  • viagens de curta distância
  • forte associação entre descanso e bem-estar
  • alto valor agregado por experiência
  • operação compatível com consumo recorrente

Enquanto outros setores podem sentir predominantemente o peso do custo trabalhista, o turismo de natureza tende a capturar diretamente o crescimento da circulação econômica gerada pelo aumento do tempo livre.

Por isso, o setor ligado à Associação Brasileira das Empresas de Ecoturismo e Turismo de Aventura pode estar entre os maiores beneficiados economicamente pelo fim da escala 6×1.

Evidência prática, sinais já observados em Foz do Iguaçu:

A experiência recente em Foz do Iguaçu já demonstra sinais importantes:

  • fortalecimento do turismo de fim de semana
  • aumento do consumo de atividades ao ar livre
  • crescimento das experiências complementares à visita tradicional
  • expansão do turismo regional e rodoviário

Esses movimentos mostram que quando existe disponibilidade de tempo, existe aumento efetivo do consumo turístico. E isso é particularmente forte no turismo de experiência e natureza.

Conclusão, uma mudança estrutural que pode ampliar a lucratividade do setor.

A escala 5×2 representa uma mudança estrutural no comportamento econômico da sociedade. E para o turismo de aventura e natureza, essa mudança possui potencial de gerar saldo financeiro positivo.

O aumento estimado de custo trabalhista tende a ocorrer em patamares relativamente moderados, enquanto o crescimento da demanda turística pode ocorrer em intensidade significativamente maior, especialmente no turismo de fim de semana e proximidade.

Mais do que compensar custos, o novo cenário pode ampliar faturamento, margem operacional, estabilidade financeira e capacidade de investimento do setor.

O que está em discussão não é apenas uma mudança trabalhista. É uma possível reorganização do consumo turístico brasileiro.

Poucos segmentos estão tão bem posicionados para crescer com isso quanto o turismo de natureza e aventura.

Os artigos assinados são de responsabilidade de seus autores e não expressam a opinião da ABETA. Direitos reservados. Para reproduzir é necessário citar a fonte.

Avatar photo
André Alliana

André Alliana é gestor de turismo, empresário e pesquisador, com trajetória dedicada ao turismo de natureza e aventura, à conservação ambiental e ao desenvolvimento territorial. CEO da Iguassu Secret Falls Ecoaventura e do Camping e Pousada Internacional, foi Secretário Municipal de Turismo e Projetos Estratégicos de Foz do Iguaçu e Secretário Municipal de Meio Ambiente. É formado em Gestão Ambiental, pós-graduado em Economia e Meio Ambiente pela UFPR e mestrando em Turismo pela UFRN.