Inscreva-se na nossa newsletter!

Vivências com argila e Turismo de Base Comunitária na Chapada dos Veadeiros

Artesã Kalunga une ancestralidade, arte e turismo para transformar sua família e comunidade

Viver um turismo além de trilhas, atrativos exuberantes ou grandes desafios e se propor a um dia (ou mais) de vivências no interior da Chapada dos Veadeiros, sendo recebido por famílias do principal povo tradicional da região, que vive no Sítio Histórico e Patrimônio Cultural Kalunga, reconhecido pela ONU como o primeiro Território e Área Conservada por Comunidades Indígenas e Locais (Ticca) do Brasil. Hoje a Abeta compartilha uma nova experiência de Turismo de Base Comunitária (TBC) desenvolvida na comunidade da Ema, no interior do município de Teresina de Goiás, no Cerrado do Planalto Central.

Partimos de Cavalcante, e após 40 Km de asfalto e apenas 2 quilômetros de estrada de chão em trecho plano, chegamos no Espaço Akan, em Teresina de Goiás. Uma cidade entre Alto Paraíso e Cavalcante, mais ao Norte de Goiás. Todas integram a região turística da Chapada dos Veadeiros, junto com São João da Aliança e Colinas do Sul.

Quem nos recebe, de sorriso no rosto, pé na terra, e prosa boa é Elizabet Fernandes da Cunha. Do povo Kalunga, nascida no lugar, ela está transformando seu caminho para retornar às suas próprias origens. Quer mudar de Alto Paraíso (cidade mais urbanizada da região), onde trabalha em uma pousada, para viver na casa da roça da família. Na comunidade da Ema, Beth encontra, através das artes rústicas com o barro, linhas que conectam histórias ancestrais de seu povo e sua família com seu presente e futuro profissional.

É Beth quem nos conta sua história, sempre ao lado da avó Dona Teresa. Com a avó, Beth resgata a criação em barro, o fazer cerâmica e um modo de vida com raízes distintas e únicas. Estamos na sombra de um quintal, com os pés descalços no chão batido, a seu pedido, “para nos unirmos à Terra”.

Elizabet criou essa vivência integrando o “Rotas do Quilombo Kalunga”, projeto de Turismo de Base Comunitária desenvolvido pelo Sebrae GO em parceria com a Associação Quilombo Kalunga (AQK) e Associação Kalunga Comunitária do Engenho II (AKCE).

Após uma boa rodinha de conversa de chegada, fomos logo lidar com o barro. Socar a argila no pilão – há de se reparar a força e o ritmo – peneirar a terra, preparar a massa, e moldar com calma e criatividade. O resultado já é o processo, e logo todos são alunos, colegas, família, modelando a argila e as prosas, em um ambiente lúdico e raro de estar.

A tarde segue com curta caminhada e muito banho de rio, ao longo das lajes do Ribeirão do Boi. Passamos pelo forno onde são queimadas as peças, e voltamos para o cafezinho da roça com produtos locais. Ao final, oferta de peças de argila e outros produtos criados pela família, e uma convivência única com histórias e olhares do principal povo tradicional de Veadeiros.

A experiência chamada “Café com Barro” é indicada para todas as idades, ideal também para escolas e grupos, com possibilidade de camping no local para outras vivências culturais próximas nos dias seguintes. A família também serve almoço sob encomenda e promove até forró dependendo do grupo presente.

Sankofa: avance em honra às suas origens

A empresa de Beth chama “Espaço Akan”, que significa coração em dialeto africano, o que ela soube depois de nomear seu projeto. A língua Akan possui os adinkras, símbolos que representam mensagens ou provérbios, como o sankofa, de um pássaro olhando para trás com um ovo nas costas, em honra ao valor do seu caminho percorrido enquanto avança para o futuro. O sankofa também aparece em um coração estilizado, muito utilizado em grades nas casas contemporâneas.

Os povos da língua Akan são oriundos da antiga Costa do Ouro, hoje de Costa do Marfim, Togo, Gana e Burkina Faso. Os adinkras foram criados pelo rei Nana Kofi Adinkra por volta do início do século XIX e eram utilizados em vestes nobres para eventos especiais e celebrações espirituais específicas. De forma intuitiva, Elizabet pode estar resgatando algo realmente ancestral. Em suas palavras: “Do barro vim, o barro me cria e eu crio o barro e para ele volto…O barro e eu já somos um só”.

Por coincidência, em janeiro deste ano, os sankofas e a palavra kalunga estavam em exposição em São Paulo, no Museu da Língua Portuguesa, na mostra “Línguas Africanas que Fazem o Brasil”, com curadoria do músico e filósofo Tiganá Santana. O sistema de escrita do povo Ashanti é formado por ideogramas que representam elementos e até provérbios em uma figura. Ao lado dos adinkras, estavam duas videoinstalações da artista fluminense Aline Motta. No Corpo Celeste II, formas milenares de grafias como do povo bakongo, onde Kalunga aparece como “um lugar entre o céu e a Terra” projetado com formas milenares de grafias.

Rotas do Quilombo Kalunga o sebrae apoia o TBC

O agente de roteiros turísticos do Sebrae, João Lino, consultor da rota na região, explica que a proposta da parceria entre o Sebrae e Associações Kalungas, é fortalecer os empreendedores locais quilombolas, colaborar no desenvolvimento de produtos e experiências turísticas, nos projetos de turismo de base comunitária, e apoiar, posteriormente, a promoção desses produtos e roteiros comunitários do quilombo Kalunga. Para pessoas como Beth, uma oportunidade de valorizar sua história, podendo viver junto à sua família, trabalhando com turismo, comunidade e preservação. Ao lado do marido, da filha, que já molda pequenas peças criativas, e da avó Teresa.

O Sítio Histórico e Patrimônio Cultural Kalunga possui 260 mil hectares distribuídos pelas cidades de Cavalcante, Teresina de Goiás e Monte Alegre. Conforme o Incra, em dados de 2024, 3.850 famílias vivem na região formada por 39 pequenas comunidades. Como comparação, o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros possui hoje 240 mil hectares.

Uma vitrine do turismo do quilombo

Natália Moreira dos Santos Rosa, secretária de Turismo, Cultura e Meio Ambiente de Cavalcante, integrante da diretoria da Associação Kalunga Comunitária do Engenho II (AKCE) e proprietária de pousada familiar, também participa da rota. “Visualizo essa iniciativa como uma vitrine do quilombo, registrando e dando visibilidade aos melhores potenciais naturais e culturais de todo território Kalunga. É interessante porque temos as visitas para testar as experiências e depois, na formação da apresentação em textos e fotos, ainda revisamos como queremos ser vistos. A rota também marca os principais festejos do território, contemplando os três municípios. É uma oportunidade de fortalecimento que bate à nossa porta, que nos permite ter uma organização e registro de nossos potenciais para transformá-los em produtos que serão divulgados, o que vai integrar nossas comunidades e multiplicar o turismo kalunga”, afirma.

O presidente da AKCE, Adriano Paulino, destaca que o desenvolvimento de experiências e vivências que apresentem a cultura Kalunga, “é um ótima forma de fortalecer nossa comunidade por meios dos saberes e fazeres das tradições quilombolas e também contribuir com a geração de renda para manter os Kalunga em seu território”.

Esta é apenas uma das dezenas de experiências diferenciadas que você pode viver com o povo Kalunga. Ali mesmo no caminho das cerâmicas de Beth, mais à frente encontramos as comunidades do Vão de Almas e Riachão, onde um largo rio e um povo tradicional te aguardam. Você poderá conhecer a tradicional Folia do Vão de Almas, que ocorre em todo mês de setembro, ou visitar as casas, navegar pelo rio e conhecer o Museu Vivo Dona Procópia, conversar com a anciã da comunidade do Riachão, Procópia dos Santos Rosa, indicada ao Prêmio Nobel da Paz pelo Projeto Mil Mulheres em 2005, e seguir caminhos entranhados de natureza, cerrado, lendas e novos antigos entendimentos sobre a vida.

E você? já viveu alguma experiência de Turismo de Base Comunitária? Se ainda não, considere fortemente. Nosso Brasil guarda tesouros únicos de culturas e vivências de um turismo autêntico e transformador para todos envolvidos.

Fotos Leda Malysz, da operadora local Fronteiras da Chapada, que acompanhou a experiência.

Os artigos assinados são de responsabilidade de seus autores. Direitos reservados. Para reproduzir é necessário citar a fonte.

Avatar photo
Leda Malysz

Leda Malysz é jornalista, ciclista, trilheira e empresária. Gaúcha, formada em Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), trabalhou em jornais, editoras, livros, revistas e sites. Escriba. Vive em Cavalcante, na Chapada dos Veadeiros (GO) e acha que sua chacrinha é Pasárgada. Acredita que a informação e o conhecimento são os melhores caminhos para evoluções mais equilibradas entre humanos e natureza, bases para evoluções humanas. Empresária na operadora Fronteiras da Chapada e na editora Broto de Letra. Busca por vivências e conteúdos transformadores e aqui na Abeta é a editora responsável pelo Blog Abeta desde 2025 e pela revista Abeta Summit desde 2022, entre outros fazeres.