No Einstein Hospital Israelita, pesquisas lideradas por Eliseth Leão mostram o quanto o bem-estar humano está ligado à natureza. Modelos de integração com a vida ao ar livre que envolvem ciência, saúde, meio ambiente e as possibilidades de aplicação no turismo.
Frequentar a natureza traz benefícios à saúde e bem-estar amplamente reconhecidos no ecoturismo e comprovados na prática das atividades ao ar livre. Quem nunca sentiu-se melhor após uma caminhada, rafting, pedal, escalada, com o vento no rosto, o sol na pele, o banho de mar e de cachoeira, nascer e pôr do sol, ou durante a simples contemplação do céu estrelado? Estar em contato com o ar livre afasta pressões tecnológicas e harmoniza o corpo e a mente. Mas como traduzir essa sensação em ciência e aplicá-la na saúde, além de preparar agentes públicos e de turismo para agirem com eficiência e metodologia a fim de promoverem uma sociedade e meio ambiente mais saudáveis no Brasil?
É o que investiga Eliseth Leão, pesquisadora do Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein. Formada em Letras e Enfermagem, com doutorado pela USP e pós-doutorado na Universidade de Estrasburgo, Lis lidera o grupo e-Natureza do Einstein.

Entre suas pesquisas de destaque está o banco de imagens e-Natureza Positive Emotion Photography Database (e-NatPOEM), publicado em 2021 na revista Scientific Reports, do grupo Nature. A proposta foi simples e inovadora: testar como imagens da natureza poderiam impactar pacientes oncológicos internados no Einstein, em São Paulo.
Após 27 mil avaliações de mais de 700 voluntários, a equipe reuniu 450 fotografias em quatro categorias – Beleza, Emoções Positivas, Tranquilidade e Miscelânea. Em seguida, 173 pacientes foram divididos em dois grupos: um assistiu a vídeos de 12 minutos com as imagens, outro não. O resultado impressionou: os vídeos reduziram dor, cansaço, ansiedade, tristeza e falta de ar, além de aumentar o apetite. A categoria “Beleza”, com imagens que evocam admiração, como flores, pássaros coloridos e paisagens, tiveram maior efeito positivo.
O banco de imagens está disponível e já é usado em outras instituições de saúde. Em Salvador, por exemplo, a fisioterapeuta Wilma Andrade aplicou o método em um abrigo de idosos em Salvador, na Bahia, e constatou benefícios semelhantes. A iniciativa mostra que a natureza, mesmo mediada por uma tela, pode ser poderosa aliada na promoção da saúde.
Ciência, saúde e natureza
O projeto que começou dentro do hospital agora se espalha para as áreas verdes. “Levei as imagens para os pacientes porque eles não tinham outra forma de se conectar com a natureza, mas as telas nunca substituem a experiência real”, diz a pesquisadora. Ela acrescenta: “Vivemos cada vez mais diante de telas e cada vez menos na natureza. Esquecemos que fazemos parte dela. Trabalho com saúde pública pensando a natureza como política e serviço de saúde. Em 2016, falar sobre tratamentos com a natureza nos hospitais ainda causava estranhamento, mas hoje o tema é aceito e traz resultados comprovados. Nossa pesquisa institucional investiga como a natureza influencia a saúde física e mental, conectando bem-estar humano e conservação da biodiversidade”.

Através de modelos teóricos e práticos, são elaboradas propostas de experiências que podem desenvolver a saúde e bem-estar cuidando da biodiversidade. Criado em 2016 e certificado institucionalmente no CNPq, o e-Natureza é interdisciplinar, reunindo médicos, enfermeiros, biólogos, engenheiros, profissionais envolvidos em áreas naturais e fotógrafos de natureza. Juntos, realizam estudos que cruzam clima, saúde, conservação e impactos ambientais, oferecendo diferentes perspectivas e estratégias para pesquisas e intervenções que conectam pessoas, saúde e natureza.
Pesquisas históricas internacionais
Em agosto de 2025, o professor Miles Richardson, da Universidade de Derby, publicou na revista Earth estudo comprovando que a conexão humana com a natureza caiu mais de 60% nos últimos 200 anos, devido à urbanização, perda de vida selvagem e à diminuição da transmissão intergeracional dessa relação. Esta notícia vai na contramão de inúmeros estudos anteriores destacando a importância dessa conexão.
“Nossos estudos envolvem a perspectiva de saúde planetária. Precisamos das duas pontas: não existe saúde humana sem um meio ambiente protegido. Esta interdependência é inerente”
O termo biofilia foi introduzido pelo psicanalista e filósofo humanista Erich Fromm em 1964, que a descreveu como uma uma tendência inata do ser humano de buscar e cuidar da vida e por tudo o que é vivo, manifestando-se como uma postura ética, afetiva e criativa diante do mundo. Cerca de 20 anos depois, em 1984, o biólogo Edward Osborne Wilson popularizou o conceito em seu livro Biophilia, propondo a chamada hipótese da biofilia. Para Wilson, essa afinidade com a natureza é inata e evolutiva, moldada ao longo de milhões de anos, pois a conexão com outros seres vivos aumentou nossas chances de sobrevivência.. Essa afinidade é, portanto, biológica e existencial – se perdermos o contato com a natureza, podemos não só destruir o planeta, mas também adoecer como espécie.
Ainda em 1984, Craig Brod introduziu o termo “technostress” em Technostress: The Human Cost of the Computer Revolution, descrevendo ansiedade, depressão, dores físicas e insônia associadas ao uso contínuo de tecnologias. Em paralelo, doenças como câncer, diabetes e problemas cardiovasculares aumentam. O estresse tecnológico surge do hábito de checar mensagens, atualizar redes sociais e permanecer constantemente conectado.
No mesmo ano, Roger Ulrich publicou na revista Science um estudo mostrando que pacientes pós-operatórios com janelas para áreas verdes recuperam-se mais rápido e usam menos analgésicos que aqueles com vistas para paredes ou prédios. Conforme a Teoria Psico Evolucionista, as pessoas carecem de estratégias para lidar com decisões e expressões de afeto além de modelar comportamentos, e nesse ponto, a natureza literalmente cuida.
Se a desconexão e a tecnologia adoecem, o contato com o ar livre traz efeitos terapêuticos. A interação com a natureza impacta inteligência, emoções, criatividade, senso estético, expressão verbal e curiosidade. Em 2009, um estudo com mais de 300 mil pessoas na Holanda, conduzido por Jolanda Maas, mostrou que quem vive próximo a áreas verdes apresenta menos problemas de ansiedade e depressão.
Entre as mais conhecidas pesquisas da área está o Banho de Floresta, que surgiu de uma iniciativa japonesa de incentivo à visitação de parques nacionais aliada à preservação ambiental. Em 2007, Qing Li definiu o Banho de Floresta como mergulhar na atmosfera da floresta e absorvê-la pelos cinco sentidos. Não se trata apenas de caminhar entre árvores, mas de ouvir sons, respirar aromas, observar cores e formas, sentir texturas e até saborear frutos. Ele demonstrou que a floresta melhora o sistema cardiovascular, reduz cortisol, pressão arterial e sintomas de fadiga, ansiedade e irritação.

O Banho de Natureza brasileiro
O Banho de Floresta japonês é citado com frequência em referência a metodologias de visitação ao ar livre para bem-estar. A América do Sul ainda não havia desenvolvido qualquer estudo científico relativo ao tema. Isso mudou há dois anos, quando o grupo do e-Natureza, com apoio da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, publicou o estudo pioneiro: “Um tempo com e-Natureza: um modelo de intervenções em saúde baseadas na natureza como um sistema adaptativo complexo”.
Coordenados por Lis Leão, pesquisadores compararam práticas de conexão com a natureza ao modelo clássico japonês. Quatro experiências foram propostas: Conhecimento (conteúdo sobre natureza e saúde); Estética/Emocional (contemplação e observação apreciativa); Multissensorial (exploração pelos sentidos); e Ativa (ações em prol da natureza durante 30 dias).
Foram realizadas 95 sessões de intervenções baseadas na natureza, com 51 sessões no grupo controle e 44 sessões no grupo experimental com duração média de 100 minutos focados em estética, conhecimento e engajamento, em um total de 486 participantes. Os cenários incluíram áreas naturais de São Paulo e Paraná: o Horto Oswaldo Cruz (Instituto Butantan), o Núcleo Cabuçu (Parque da Cantareira), o Parque Natural Municipal Varginha, a RPPN Salto Morato e o Parque das Neblinas.
Em comparação ao Banho de Floresta, o Modelo “Um tempo com e-Natureza” foi mais eficaz em melhorar o bem-estar, conexão com a natureza e comportamentos pró-ambientais, 30 dias após a intervenção, particularmente em ambientes periurbanos. A integração do conhecimento com a vivência direta trouxe ganhos mais consistentes para saúde e preservação.

O grupo experimental apresentou maior compra de produtos ecológicos, mais voluntariado, doações a organizações ambientais e assinaturas de petições, em comparação ao grupo controle.
“Que a natureza faz bem todos sabem. O papel da ciência é apontar como esse benefício ocorre, quais variáveis e metodologias estão envolvidas. Só assim podemos prescrever intervenções adequadas, sem simplesmente transpor pesquisas do Hemisfério Norte para o Sul. Temos biomas, culturas e climas distintos, que moldam nossa relação com a natureza. O Brasil começa a gerar evidências próprias para fundamentar práticas de saúde na natureza, e esse é o maior avanço.”

Certificação de boas práticas para o turismo
Como um dos produtos ainda, do projeto Um Tempo com e-Natureza o do Einstein Hospital Israelita, Lis Leão com seu time de pesquisa e institucional desenvolveu o primeiro “Manual de Certificação de Boas Práticas em Turismo de Bem-estar com aNatureza”, um conjunto de diretrizes para quem quer desenvolver atividades de bem-estar em ambientes naturais. Ele já está disponível no Einstein, por meio do Escritório de Excelência, área que oferece soluções para excelência em qualidade e segurança nos segmentos da saúde, educação para órgãos institucionais, poder público ou qualquer entidade que visualize focar em qualidade na área. Este manual estabelece padrões de segurança, processos, intervenções, legislações, preservação, formação, capacitação, parcerias com comunidade, visitantes, gestão de fornecedores e medidas de desempenho e melhorias contínuas. Um conjunto de conhecimentos que ajudam a desenvolver processos de alto padrão no desenvolvimento de atividades que buscam aprimorar experiências que interligam a natureza com a saúde e a preservação.

Dica de livro
“Natureza, Clima e Saúde Pública” Editora dos Editores, 2024. Edição organizada por Lis Leão, Luciano Moreira Lima e Roberta Maria Savieto. A obra de 456 páginas, construída com mais 60 especialistas, está estruturada em três eixos principais: 1)Bases conceituais: saúde, meio ambiente e saúde planetária; 2) Grandes temas em natureza, clima e saúde, como implicações bioéticas, Impactos diretos nas políticas, sistemas e serviços de saúde, dentre outros; e 3) Experiências, que reúne Intervenções baseadas na natureza pautadas em evidências científicas.
Cursos gratuitos
Na plataforma https://projetoseducacionais.ensinoeinstein.com, acesse o projeto e-Natureza e encontre dois cursos gratuitos:
- Curso Introdutório de Natureza e Saúde: Área da Saúde
- Curso Introdutório de Natureza e Saúde: Áreas Naturais
Artigo publicado originalmente na Revista Abeta Summit 2025, que você pode conferir aqui.
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