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Turismo de natureza e ação climática: o futuro do setor depende dos territórios que protegemos

A Semana do Meio Ambiente nos convida, todos os anos, a olhar para aquilo que muitas vezes está diante de nós, mas que nem sempre conseguimos enxergar em sua profundidade. Em 2026, esse chamado ganha ainda mais força. O Dia Mundial do Meio Ambiente, celebrado em 5 de junho, terá como tema global “Inspired by Nature. For Climate. For Our Future”, reforçando uma mensagem que deveria atravessar todas as decisões do nosso tempo: a natureza não é opcional, ela é central para a resiliência climática e para o futuro coletivo.

No turismo de natureza, essa conversa deixa de ser abstrata muito rapidamente, porque, para o nosso setor, a crise climática não é apenas uma pauta ambiental, uma exigência reputacional ou um compromisso institucional distante. Ela já afeta os rios, as trilhas, os ciclos de chuva, os períodos de seca, a fauna, a infraestrutura, a segurança da operação e a própria permanência dos atrativos que sustentam a atividade turística. A conversa mais urgente que precisamos fazer, portanto, é a transição definitiva das discussões de sustentabilidade para uma ação climática regenerativa.

Não basta mais minimizar impactos para as futuras gerações. O setor precisa encarar a emergência climática como o fator que definirá a sobrevivência da própria atividade.

Essa mudança começa por uma pergunta simples, mas profunda: como transformar compromissos globais em práticas locais? A Glasgow Declaration on Climate Action in Tourism, liderada pela ONU Turismo, propõe que o setor apoie o compromisso global de reduzir emissões pela metade até 2030 e alcançar emissões líquidas zero o mais rápido possível antes de 2050. Mas ação climática, no turismo, não pode ser entendida apenas como neutralização de carbono ou compensação de emissões. A própria ONU Turismo define essa agenda como o esforço de medir e reduzir gases de efeito estufa, ao mesmo tempo em que se fortalece a capacidade de adaptação aos impactos induzidos pelo clima. Isso significa falar de mitigação, adaptação, gestão de risco, governança, financiamento, inteligência de dados e ordenamento territorial.

Muito além de paisagens bonitas

Muitas vezes, as Unidades de Conservação aparecem na comunicação turística apenas como paisagens bonitas. São vendidas como cenários, como imagens de contemplação, como lugares de visitação e encantamento. Mas o que se perde quando o setor enxerga esses territórios só como atrativos? Perde-se a complexidade sistêmica e o valor real da biodiversidade. Quando reduzimos as áreas protegidas a um mero fundo fotográfico, invisibilizamos os serviços ecossistêmicos cruciais que elas oferecem: regulação climática, segurança hídrica, proteção de espécies ameaçadas, manutenção de modos de vida e sustentação de economias locais.

O poeta sul-mato-grossense Manoel de Barros nos ensinava que “o mundo não foi feito em alfabeto/senão que em água e pedra” e que é preciso “desver o mundo” para enxergá-lo de verdade. Talvez o turismo de natureza precise, neste momento, aprender a desver a maquete comercial que muitas vezes construiu sobre os territórios. Precisamos desver a paisagem como produto de prateleira para enxergá-la como água, pedra, vida interdependente, salvaguarda ambiental e possibilidade concreta de desenvolvimento socioeconômico para comunidades. A natureza não é um cenário imutável à disposição do visitante. É um território vivo.

O Brasil tem uma trajetória importante na criação e consolidação de áreas protegidas. Segundo o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, desde a criação do Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza, a área total protegida por UCs aumentou 244,8%. No mesmo período, o número de unidades mais que triplicou, passando de 1.053 para 3.185. Mas para que as Unidades de Conservação sejam de fato valorizadas, conservadas e integradas ao desenvolvimento territorial, é preciso também que o turismo opere com responsabilidade, base científica e compromisso com a permanência da vida.

O turismo se torna aliado efetivo da conservação quando três condições caminham juntas: governança multinível, base científica e retorno financeiro direto para a conservação. A ciência aponta o que precisa ser protegido, quais são os limites de uso e onde estão os sinais de alerta. A governança cria os pactos, as orientações e os mecanismos para que essas recomendações sejam respeitadas por todos os atores. E o retorno financeiro garante os recursos necessários para fiscalização, monitoramento, pesquisa e fortalecimento das comunidades locais. Quando um destino consegue alinhar essa tríade, ele deixa de ser apenas um local de contemplação e passa a ser um modelo de desenvolvimento territorial sustentável.

O que podem fazer as empresas de ecoturismo e turismo de natureza?

Nesse sentido, as empresas de ecoturismo e turismo de aventura têm um papel decisivo. Elas são guardiãs desse patrimônio e, muitas vezes, os principais canais de conexão do visitante com a realidade do território. Seu papel vai muito além de guiar com segurança. Envolve apoiar projetos consolidados de conservação de espécies locais, praticar monitoramento ambiental participativo, adotar medidas de ecoeficiência e atuar como âncoras de conformidade em toda a cadeia de suprimentos. Uma empresa responsável influencia o transporte, a gastronomia, a hospedagem, os fornecedores, os condutores e a própria cultura de visitação. Ela não apenas opera em um território; ela ajuda a definir que tipo de relação será construída com ele.

Por isso, segurança, sustentabilidade e profissionalização não podem ser tratadas como agendas separadas. Elas são dimensões indissociáveis de uma mesma gestão de riscos.

A profissionalização do setor, com guias qualificados, protocolos bem definidos e implementação de Sistemas de Gestão de Segurança, é o que garante uma operação segura em ambientes naturais complexos. Uma operação segura e profissional reduz impactos negativos, evita pisoteio inadequado, dispersão de fauna, poluição de corpos d’água e condutas que comprometem a integridade dos atrativos. Sem profissionalização, não há segurança. Sem segurança, o turismo destrói a reputação do destino. Sem sustentabilidade, a matéria-prima do turismo — a natureza — fica comprometida.

O que posso dizer do MS

No Mato Grosso do Sul, temos aprendido que a sustentabilidade de um destino não nasce de ações isoladas. Ela depende da estruturação de um arranjo sistêmico entre políticas públicas, rigor técnico e parceria privada. O ordenamento do turismo, o controle da visitação, o licenciamento ambiental, o monitoramento dos atrativos, a governança fortalecida e o engajamento do setor privado mostram que é possível alinhar desenvolvimento econômico e conservação. Também mostram que sustentabilidade não pode ser tratada como adorno discursivo. Ela precisa entrar no modelo de gestão, no planejamento, na operação e na forma como os destinos se posicionam diante do mercado.

Ainda falta, no entanto, um passo importante para que a sustentabilidade deixe de ser vista como diferencial e passe a ser critério básico de operação. Precisamos fortalecer mecanismos de indução, conformidade legal e exigência de mercado. A sustentabilidade deve ser integrada aos critérios de licenciamento, financiamento, crédito, contratação e promoção turística. A fiscalização ambiental e turística precisa ser eficiente. Operadoras, empresas e viajantes precisam valorizar certificações, regularidade, segurança e responsabilidade socioambiental. A sustentabilidade deixará de ser diferencial quando o custo de operar na ilegalidade ou na irresponsabilidade for proibitivo — não apenas financeiramente, mas também em termos de reputação, acesso a mercado e permanência no território.

Vamos nos comprometer?

Se há três compromissos imediatos que o setor pode assumir nesta Semana do Meio Ambiente, eu diria que o primeiro é avançar na descarbonização com base em ciência. Cada empresa e cada destino precisam se perguntar como estão inventariando seus impactos, reduzindo emissões, apoiando restauração local e protegendo os ecossistemas dos quais dependem. O segundo é integrar redes de governança, porque nenhuma empresa, por melhor que seja, resolve sozinha os desafios climáticos, ambientais e territoriais. É preciso participar das decisões, dos conselhos, dos pactos e dos processos de ordenamento da região onde se opera. O terceiro é atualizar a profissionalização diante da emergência climática.

Nossos protocolos de segurança já consideram eventos meteorológicos extremos? Nossos planos de contingência dialogam com as novas realidades do clima? Nossas infraestruturas estão sendo adaptadas para cenários de maior instabilidade?

O avanço definitivo dessa agenda exige que cada um de nós olhe para a própria realidade e assuma um compromisso inadiável com esse tripé. O futuro do turismo de natureza no Brasil não será medido apenas pelo volume de visitantes, pelo número de pacotes vendidos ou pela força das imagens compartilhadas nas redes sociais. Ele será medido pela nossa capacidade de proteger os territórios que nos sustentam, de financiar a conservação, de fortalecer comunidades locais, de gerar desenvolvimento sem romper os equilíbrios ecológicos e de transformar o fluxo turístico em força real de resiliência.

Diante da urgência climática, o ecoturismo e o turismo de aventura no Brasil têm a oportunidade e a responsabilidade de dar protagonismo ao Sul Global, mostrando que é possível converter negócios em conservação, experiência em consciência e visitação em proteção. Mas essa não é uma jornada para se trilhar sozinho. É no coletivo que transformamos ideias em políticas de Estado, compromissos em práticas de mercado e territórios visitados em territórios cuidados.


A ABETA, como rede que reúne empresas comprometidas com profissionalismo, sustentabilidade, inovação, segurança e vida ao ar livre, tem um papel fundamental nesse movimento. Em uma agenda que conecta ciência, governança e mercado, o associativismo não é apenas uma forma de representação setorial. É uma estratégia de transformação. E talvez seja justamente esse o chamado mais importante desta Semana do Meio Ambiente: deixar de tratar a natureza como cenário e assumir, com seriedade e coragem, que defender a natureza é defender a própria continuidade do turismo.

Inclusive, por essas e outras tantas boas razões, estarei no Abeta Summit 2026, que acontece de 25 a 28 de novembro em Campo Grande! Nos vemos lá?

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Flavia Neri

Bacharel em Turismo (UCDB) e em Comunicação Social/Jornalismo (UFMS), especialista em Gestão de Turismo, Hotelaria e Eventos (UNIDERP) e em Gestão de Áreas Protegidas (UEMS), e mestre em Geografia com ênfase em Desenvolvimento Regional (UFMS). É Fiscal Ambiental no Imasul e atua como Assessora de Sustentabilidade e Ação Climática no Turismo na Fundação de Turismo de Mato Grosso do Sul, coordenando projetos estratégicos de turismo responsável, fortalecendo a promoção e comercialização do setor, e implementando iniciativas de sustentabilidade e ação climática para a governança do destino. É também ponto focal do Fórum Nacional de Secretários e Dirigentes de Turismo (FORNATUR) na Câmara Temática de Sustentabilidade e Ações Climáticas do Conselho Nacional de Turismo