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Caravana Abeta pelo Espírito Santo: caminhos, conexões e descobertas

Foram cinco cidades, quatro edições do Abeta Conecta e uma infinidade de sensações que ainda vivem em mim. Essa foi a minha jornada com a Caravana Abeta pelo Espírito Santo, uma travessia que tinha como destino o território capixaba. Um estado pequeno em extensão, mas imenso em diversidade, beleza e encontros.

Desde o início, eu sentia que seria especial, afinal sempre que posso dar um “check” na lista de estados faltantes do mapa brasileiro, sinto que há um sabor singular.

Foram dias intensos, atravessando serras, praias, cafés, trilhas, ventos e ondas. Foram também dias de trabalho, claro, mas mais do que isso: foram dias de pertencimento. Em cada parada, eu me encontrava um pouco mais — na natureza, nas pessoas, nos sotaques e nos desafios.

Desde 2018, a Abeta já realizou 21 edições do Abeta Conecta, cada um deles com uma composição diferente de especialistas e consultores, mas esta viagem tinha algo especial: pela primeira vez faríamos 04 encontros em sequência, cruzando um estado. Ver esse projeto crescer, tocar pessoas e inspirar transformações reais é uma das coisas mais bonitas que já vivi profissionalmente. E, claro, como esperávamos, o Espírito Santo foi, de diversas formas, um capítulo à parte dessa história.

Vitória – o mar que me convida

Minha chegada em nossa caravana começou pela capital capixaba, Vitória. Cidade-ilha, cidade do mar, cidade das canoas. Desde que soube que começaria por ali, uma parte de mim já estava ansiosa — ou melhor, com saudade de um mar que eu ainda nem conhecia.

E foi assim que, com menos de 12 horas na cidade, eu encontrei tempo para realizar um sonho: remar em águas capixabas.

O Va’a — a canoa havaiana — é fortíssimo por lá. E foi impossível resistir ao convite de entrar na água. A turma do clube Trip Canoa me emprestou uma V1, um modelo de canoa individual, e me desafiei num percurso completamente diferente. As ondas não pareciam com as que já encarei em Floripa; eram maiores, mais densas, com um balanço que me fez entender de verdade o que é estar entregue aos desafios do mar.

Mas antes mesmo de remar, na noite da minha chegada, tive o privilégio de viver um pequeno ritual: sentei sozinha na orla, pedi uma cerveja gelada, um bolinho de bacalhau e, claro, adicionei o toque especial do molho de pimenta capixaba. Aquela mistura de mar, sal e silêncio foi, pra mim, a tradução perfeita de como pequenos momentos podem ser gigantes. Vitória ficou em mim como o início ideal: simples, intensa e saborosa.

Deixei o litoral e segui pra encontrar os demais rumo ao interior. No caminho, algo me chamou a atenção: um templo budista que surgiu entre as montanhas, com uma imensa escultura de Buda que se via de longe, quase como um sinal de boas-vindas à estrada.

Eu não parei, mas fiquei tocada com a imagem — imponente, serena, fora do tempo.

No caminho, ainda encontrei a Parada Ibiraçu, “o bar de estrada 24h mais antigo do Brasil”, imagina, o local não tem nem porta! E dizem que ali tem um dos melhores pastéis de vento do Espírito Santo. Uma tradição que abraça a cidade e os viajantes que cruzam a BR101 naquela altura.

Pancas – encontro entre montanhas

Meu destino final desta etapa era Pancas, uma cidade que até então eu nunca havia ouvido falar, mas ao chegar já pude entender nossa missão naquele local. A cadeia de montanhas que se avista da estrada é monumental, um atrativo à parte, imponente, surpreendente e cheio de formatos, digamos assim, libidinosos (quem quiser saber mais, pode procurar no Google).

A cidade, que já recepcionava a primeira edição do Abeta Conecta ES, é pequena, daquelas clássicas do interior, com a praça que tem a igreja, a escola e marca o ponto de encontro dos cidadãos.
Nela, pudemos conhecer dois pontos turísticos que foram, por assim dizer, inusitados. Uma tirolesa que é gerenciada pela administração municipal, mas que estava fora de operação e o morro do parapente, em que tem uma vista incrível, mas que também não havia qualquer movimentação das atividades de aventura.

A natureza de Pancas é um cenário à parte, mas a cidade ficou marcada em nós com uma brincadeira, que no fundo levamos muito à sério: não havia cadeiras para crianças em nenhum restaurante, e nosso bando andava com duas crianças à tiracolo. A mãe, uma das nossas especialistas, acabava que tinha que fazer as refeições com apenas uma mão, para segurar e alimentar a bebê ou contar com um “tio” que já havia feito a sua refeição, para conseguir comer com o luxo, de vejam só!: duas mãos.

Brincadeiras à parte, a falta do item impactou muito a nossa experiência em diversos locais e acabou se tornando um marco na nossa viagem. Depois da primeira paragem, não havia um restaurante sequer que na entrada já não havia nosso questionamento “tem cadeirão aqui?”.

Nós, que viajamos para mostrar a importância que os detalhes têm na construção de uma experiência, víamos em cada uma dessas brechas uma oportunidade para que os destinos, empreendimentos e atrativos pudessem fazer melhor e diferente.

Guarapari — entre o mar, o vento e as boas conexões

Da montanha, voltamos ao litoral. A próxima parada: Guarapari.

Cidade conhecida pelas praias, pelos fins de semana animados e — pra minha alegria — por ser outro polo de canoa havaiana no estado.

E lá vou eu, de novo, tentando ficar o mais próximo possível do mar e daquilo que me faz tão bem: as rotinas dos alvoreceres matinais.

Guarapari é grande, bem maior que Pancas, mas surpreendentemente tudo parece acontecer em torno de um único lugar: a Praia do Morro.

Todas as nossas escolhas de alimentação, passeio, lojas, tudo acabava por cair lá. Uma praia que tem um grande Marlim encravado nas pedras, bem no meio da faixa de areia da praia, e que é, certamente, um dos pontos mais fotografados da orla. Em 5 minutos que cheguei perto pra também fazer uma foto, flagrei mais de 10 pessoas fazendo o mesmo (e isso não era nem 6h da manhã de um sábado).

O Abeta Conecta de Guarapari foi especial. Senti uma troca intensa com os participantes, uma vontade real de construir, de aprender, de partilhar. Talvez fosse o clima do mar, talvez fosse o espírito do grupo. Mas foi ali que mais me conectei com as pessoas.

No final do simpósio, quando vamos à natureza para conhecer ou plantar, tivemos a oportunidade de ir à Praia do Ermitão, que fica no canto da praia (adivinhem qual?) do Morro(!) e só é possível acessar por uma trilha, mas que é leve e grande parte pavimentada.

O dia que fomos tinha um vento forte, pouco conseguimos permanecer no local sem abrigo, mas a volta nos presenteou com um pôr do sol incrível, de alguns dos mirantes que encontramos pelo caminho.

No dia seguinte, ainda insistindo em aproveitar o mar, encontramos a Praia das Conchas — abrigada, tranquila, de areia coberta de pequenas conchinhas.

E foi ali que aconteceu uma das cenas mais bonitas da viagem: uma reunião dentro d’água. Consultores, amigos, parceiros — todos ali, flutuando e trocando ideias, como se o mar fosse a melhor sala de reuniões do mundo.

Ainda levei mais três pessoas da trupe pra remar comigo, juntamente com a turma do Amigos da Canoa. Apresentar a canoa, o mar, o que me move — foi lindo. Obrigada, Guarapari. Você foi conexão em todos os sentidos.

Malas prontas, é novamente hora de partir.

Iúna — o coração do Caparaó

Rumo à serra capixaba, Iúna vem aí, uma cidade pequena, que respira café e que fica no “Coração do Caparaó”, uma região de natureza exuberante e que tem em suas raízes culturais muitos elementos que tivemos a sorte de sermos apresentados, entre eles, claro, o café, mas teve muito mais! Leite queimado, bolo de melado, açaí… A região é farta e orgulhosa de sua culinária.
A mesa posta do café era não só de comer com os olhos, mas composta de detalhes de amor de quem vive ali.

Iúna tem trabalho de marca, tem logotipo, tem apelo visual. Eu, como alguém do marketing, fiquei feliz em ver que vive muito de branding ali. Onde se olhava, estava lá, o símbolo do “Coração do Caparaó”, vivo, pulsando na rotina das pessoas.

Conhecemos lugares simbólicos: a Água Santa e a Pedra do Pecado (diz a tradição que é preciso passar por dentro de sua fenda três vezes, para se livrar dos pecados).

No dia seguinte, acompanhados do Guia Jorginho, da Eco Trilhas, fomos ao Poço das Antas, uma trilha curta, um pouco íngreme, mas que esconde um tesouro na natureza. A cor da água era de um azul esverdeado inacreditável. No caminho, encontramos o Poço da Tartaruga, que, pra mim, foi o mais encantador. Piscinas naturais se formam entre as rochas, e a vista se abre para uma cadeia de montanhas onde ainda se avistam os cafezais. É um daqueles lugares que te fazem suspirar e agradecer por estar vivo.

E como se não bastasse, seguimos para uma experiência de café. A estrada faz uma curva e, sem perceber, o Espírito Santo vira Minas Gerais. Chegamos à Fazenda Ninho da Águia, onde fomos recebidos com hospitalidade mineira e cafés premiados. Não resisti: trouxe comigo grãos cobertos com chocolate.

Iúna foi doçura, simplicidade e força. O tipo de lugar que te faz lembrar que a vida tem outro ritmo quando você se permite sentir.

Venda Nova do Imigrante – o sabor das origens

A última parada da nossa jornada foi Venda Nova do Imigrante — ou VNI, como os locais dizem. Logo na chegada, entre as montanhas, uma enorme faixa suspensa cortava o céu: “Festa da Polenta”.

De longe, parecia um highline anunciando que estávamos prestes a entrar em um território festivo e cheio de histórias.

E é exatamente isso. Venda Nova é um pedacinho da Itália em solo capixaba. Bandeiras verde, branca e vermelha decoram as esquinas, e um simpático personagem – carinhosamente apelidado por nós de Polentinho – aparece por toda parte.

A cidade, que vibra cultura, identidade e tradição, embora pequena, tem uma avenida principal que dá pra ela contornos de uma cidade menos interiorana e mais urbanizada, mas isso se resume ao canteiro central, na realidade, é pequenina e também acolhedora.

Nos dias do Conecta, estivemos na Casa Nostra, um espaço encantador que funciona como museu e também abriga o Polo de Turismo de Experiência do Sebrae, o único do Brasil.

Foi inspirador ver como a cidade tem se organizado para fortalecer o turismo e valorizar suas origens. As falas, os projetos, o envolvimento das pessoas — tudo transmitia orgulho e pertencimento.
Infelizmente, o tempo foi curto e não conseguimos explorar tanto a natureza, mas a passagem pela Pedra Azul foi suficiente pra deixar um gostinho de “quero voltar”.

A promessa de um voo de balão paira como um convite para o futuro. E eu aceito.

A caravana é feita de gente

Nossa caravana se ensaia para o fim, nossa trupe reunia gente de Santa Catarina, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul, além de duas crianças que, entre risadas e brincadeiras, nos lembravam do que realmente importa: leveza, curiosidade e alegria.

Enfrentamos desafios — logísticos, alimentares, estruturais — mas o que mais me marcou foi a forma como enfrentamos tudo juntos. Nada parecia pesado demais quando era compartilhado.

Houve cansaço, claro. Mas houve também parceria, amizade e cumplicidade.

A cada parada, a gente se reconhecia um pouco mais. A caravana não é feita só de quilômetros percorridos, mas de histórias vividas, de olhares trocados, de silêncios respeitados.

No fim das contas, é sobre andar junto. Sobre acreditar que o turismo pode — e deve — ser uma ferramenta de transformação, para o território e para as pessoas.

De volta pra casa, com as malas repletas de lembranças e o coração cheio de gratidão, me peguei pensando no quanto o Abeta Conecta representa tudo o que acredito no turismo: troca, aprendizado, conexão e movimento.

Foram quatro edições no Espírito Santo, mas a sensação é de que vivi muito mais, entre mares, montanhas, cafés, pimentas, polentas e pessoas.

Foram experiências que me lembraram que, no fundo, é isso que a gente faz: conectar pessoas com lugares e lugares com pessoas.

Nem sempre é fácil. Exige tempo, dedicação, abrir mão de rotinas, de conforto, de casa. Mas cada cidade, cada abraço e cada conversa faz tudo valer a pena.

Saio dessa jornada com o sentimento de missão cumprida — e com o desejo de continuar semeando, junto com a Abeta, essa transformação que começa pequena, mas cresce a cada edição.
Obrigada a todos que fizeram parte.

Obrigada, Espírito Santo, por me mostrar tantas faces do país em um só território.

Obrigada pela leitura.

E visitem o Espírito Santo, a sua diversidade de paisagens, culturas e culinária é extremamente rica e lá tem muito de Brasil pra ser conhecido e admirado.

Nos vemos na próxima caravana!

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Fernanda Dornelles

Especialista em marketing e comunicação com duas décadas de atuação no mercado publicitário, é uma empreendedora no setor de turismo de aventura e natureza. Formada em Comunicação Social e Marketing Estratégico pela Universidade do Sul de Santa Catarina, construiu uma carreira sólida em grandes empresas de comunicação em Santa Catarina e no Paraná. Atualmente, dedica-se ao desenvolvimento de projetos de experiência, combinando sua expertise em marketing, publicidade e conteúdo. Como sócia Canoa Catarina, da Natural Extremo e fundadora da Viverdi Aventura, impulsiona o turismo de aventura brasileiro, criando marcas, produtos e serviços inovadores. Sua liderança se estende à ABETA, onde atualmente ocupa o cargo de Vice-presidente.