Em comparação com países como Austrália, o Brasil não oferta valor agregado suficiente para aumentar a rentabilidade das experiências
Enquanto Brasil e Austrália compartilham um número muito próximo de visitantes estrangeiros por ano, a diferença na receita gerada pelo turismo internacional em cada um dos países é impressionante: a Austrália gera quase quatro vezes mais receita em sua economia de serviços turísticos quando comparada ao Brasil. Qual seria o motivo? Por que o Brasil, tão rico em atrativos naturais e culturais, gera uma receita bem menor com praticamente o mesmo número de visitantes internacionais? Como poderíamos reverter esse quadro?

Para entendermos melhor, vamos aos números: em 2023 a Austrália recebeu 7,1 milhões de visitantes estrangeiros. No Brasil, em 2024, chegaram 6,7 milhões de turistas internacionais, um recorde histórico, maior que o de 2023, de 5,9 milhões. Na Austrália, em 2023, os visitantes internacionais deixaram uma receita de 28 bilhões de dólares. No Brasil, em 2024, visitantes internacionais deixaram uma receita de 7,3 bilhões de dólares. A renda do turismo internacional no Brasil alcançou um recorde nacional, mas em montante 3,8 menor que a renda gerada na Austrália um ano antes.
Analisando a origem dos visitantes, temos os seguintes dados: entre os três maiores emissores, a Austrália tem a vizinha Nova Zelândia como principal emissora, de onde receberam 1,2 milhões de pessoas; depois, os Estados Unidos – 959 mil pessoas, seguido do Reino Unido, com 596 mil visitas registradas. Em comparação, quem são os visitantes internacionais do Brasil? Em ordem de escala, recebemos 1,9 milhões de argentinos, 728 mil pessoas vindas dos Estados Unidos e 651 mil chilenos em 2024. Em análise, tanto o Brasil quanto a Austrália atraem em primeiro lugar visitas de países vizinhos, seja Nova Zelândia para Austrália ou Argentina para o Brasil. O segundo colocado em origem de turistas internacionais é o mesmo para ambos, os Estados Unidos. Os terceiros colocados dos dois países, seja Reino Unido ou Chile, enviaram quase o mesmo número de turistas (596 mil britânicos e 651 mil chilenos). Também, os dois países, tanto Brasil quanto Austrália estão no hemisfério Sul, com inverno e verão em períodos do ano semelhantes. Então qual seria a justificativa para essa discrepância que aponta um valor financeiro tão menor recebido por nossa operação turística?
A resposta pode se estruturar em diferentes questões: perfil do turista e gasto médio; duração da estadia; estrutura turística e preços; custo de vida e câmbio, e especialmente, foco em turismo de qualidade versus quantidade.

Austrália desenvolve produtos turísticos variados e sofisticados
A Austrália, colonizada por ingleses, desenvolveu uma robusta e diversificada cultura da Vida ao Ar Livre, e essa base cultural, ajudou a fomentar uma oferta de experiências turísticas em ambientes naturais muito diversa e sofisticada. Ela oferece uma paleta de serviços para o consumo dos visitantes muito mais variada e aprimorada que a brasileira. Eles buscam a resposta para duas questões: Qual o nosso diferencial e qual o nosso valor? O que queremos vender no turismo e para quem?
A Austrália atrai turistas de alto poder aquisitivo, especialmente da Europa, América do Norte e Ásia, que tendem a gastar mais em hospedagem premium, experiências exclusivas e viagens de longa duração, com média de 18 a 20 dias de estadia. O turismo australiano é fortemente voltado para experiências de luxo e aventura, que possuem margens de lucro maiores.
O Brasil, apesar de receber muitos turistas, uma parcela significativa vem de países vizinhos (como Argentina e Chile), que frequentemente optam por destinos mais acessíveis, como praias e fronteiras, com gastos menores em comparação aos turistas de longa distância. E o tempo de estadia é menor, em torno de 10 a 12 dias.
A Austrália dispõe de uma infraestrutura turística consolidada, com serviços de alto padrão e preços elevados, como safáris, vinícolas e parques nacionais estruturados para receber visitantes exigentes. O Brasil, embora ofereça diversidade, ainda enfrenta desafios em infraestrutura e profissionalização do setor. Outra observação que podemos fazer é em relação à economia: a Austrália possui um custo de vida alto que se reflete nos valores para os turistas, enquanto no Brasil, a desvalorização do real nos últimos anos tornou o país mais barato para estrangeiros, reduzindo a receita total em dólares.
A estratégia de mercado entre a busca por valor agregado ou por volume de turistas
A Austrália maximiza a receita por turista através de estratégias de valor agregado, enquanto o Brasil ainda está na fase de atrair volume de pessoas e número de atendimentos. Melhorias em infraestrutura, profissionalização e promoção de experiências premium poderiam equilibrar essa diferença.
Surge a reflexão de que, talvez, não tenhamos ainda nos dado conta da importância de aprimorarmos a oferta para agregar mais valor, profissionalizar e atrair clientes que estão dispostos a pagar mais caro e dispensar maior tempo para usufruir de experiências em ambientes de lugares naturais preservados e culturais autênticos. O Brasil ainda precisa encontrar sua identidade de valor. Estamos focados na produção e comercialização, o que paga nossas contas no final do mês, mas talvez o mercado internacional esteja com demandas que não estamos conseguindo atender. Devemos agregar valor experiencial, cultural, ambiental e econômico à nossa oferta de serviços e experiências turísticas.

Como o Brasil pode agregar qualidade em experiências sofisticadas
Precisamos trabalhar em políticas públicas que melhorem a qualificação dos profissionais brasileiros, ampliem e inovem a infraestrutura de mobilidade pelo país, (como pode um país deste tamanho não ter um sistema ferroviário decente?). A iniciativa privada precisa ter mais iniciativa! Precisamos desenvolver novos produtos, roteiros e experiências que atendam diferentes demandas, em especial consumidores exigentes, mas conscientes, interessados na natureza e com alto poder de consumo. Devemos encontrar melhores soluções para um turismo mais sustentável, mais seguro e que entregue uma experiência de alta qualidade, nos inspirando em mercados turísticos que geram maior renda com menor escala. Menos pode ser mais.
Mas, em meio a essas questões, precisamos definir qual posição do turismo queremos firmar. Desejamos ser um produtor de experiências em padrão industrial ou artesanal? Queremos ser reconhecidos pelo preço baixo ou pela qualidade das nossas experiências?
Quem escolhe viajar em lugares com natureza exuberante, com certeza considera visitar o Brasil, afinal, natureza e cultura temos de sobra. O que podemos fazer para agregar valor e aprimorar a nossa oferta? Podemos tentar entender o que os ecoturistas de alta renda buscam em suas viagens e trabalhar para atender essas expectativas sem abrir mão do nosso jeito e das nossas raízes. Precisamos transformar o Turismo Brasileiro de Natureza em referência de qualidade, segurança e sustentabilidade, oferecendo as melhores experiências e atraindo os melhores clientes. Para alcançar esses objetivos precisamos de planejamento, visão estratégica e parcerias colaborativas entre poder público, iniciativa privada, academia e sociedade civil organizada.
Os desafios são enormes, mas alcançado os objetivos, as recompensas também serão!
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